domingo, 15 de janeiro de 2012

CENOGRAFIA - TEXTO 01

O teatro, o cinema, a televisão e o  cenário virtual
Fonte:


A cenografia virtual vem tomando espaço em emissoras de todo mundo, e aqui no Brasil já vemos os primeiros sinais de sua instalação. Programas como o Globo Repórter, Fantástico, Pelo Mundo e N de Notícia, fazem uso de cenários corpóreos totalmente produzidos por computador.


No cenário virtual é possível incluir objetos virtuais na cena e, com um ensaio prévio, criar a ilusão de que o ator está interagindo com eles. Ele pode circular em volta do objeto e ter sua sombra e reflexo projetados nele como se fosse um objeto real. Os movimentos de câmera (pan, zoom e travelling), que não eram possíveis de se conseguir no chroma-key, fazem um cenário virtual parecer real. Uma das formas de se produzir este movimento é através de sensores instalados nas lentes e no tripé das câmeras.


A revista Luz & Cena, em matéria publicada em setembro de 1998, já descrevia com fascínio a apresentação do cenário virtual na Broadcast & Cable que acontecia no Palácio das Convenções do Anhembi em São Paulo: "No estande, uma atriz permaneceu a frente de um cenário com apenas um fundo pintado em azul. Na tela, entretanto, foi visualizada a interação da atriz com imagens reais"(Mello in Luz & Cena, 1998: 53). Claudio Younis, diretor da Eletro Equip, empresa que comercializa no Brasil os software para cenários virtuais, afirmou que tecnicamente os cenários virtuais fazem a composição dos atores ou apresentadores com um cenário 3D, que acompanha de forma realísticas os movimentos da câmera e, complementa, "a vantagem desta tecnologia é a possibilidade de ampliar a criatividade dos produtores, com a redução dos custos operacionais na criação de cenários reais" (Mello in Luz & Cena, 1998: 54). Na Broadcast & Cable 2000, realizada em agosto, no Centro de Exposições Imigrantes em São Paulo, a Eletro Equip voltou a demonstrar os equipamentos para cenografia virtual, agora com novos recursos (como transmissão pela rede), assim como, a queda no preço dos equipamentos, o que acaba tornando-o ainda mais viável.


Esta nova forma de pensar e desenvolver o projeto cenográfico televisivo vem afetando diretamente os profissionais envolvidos na criação e produção cenográfica.


As imensas fábricas de cenário começam a dar lugar a pequenas salas informatizadas, os estúdios de televisão reduzem seu espaço, estrutura física e pessoal. A cenotécnica e maquinária, responsáveis pela construção e instalação do cenário vão sendo substituídas. Aos poucos softwares como o 3D Studio Max, Larus, Ibis entre outros, ocupam o espaço que antes era da madeira, dos revestimentos e tintas. Operadores de computador tomam o lugar de marceneiros, pintores e aderecistas, que partem para outros mercados, como eventos, shows e outras áreas de entretenimento que hoje utilizam seus serviços.


Os cenógrafos, diante da transformação por que passa este meio, não estão imunes a esta onda de substituições, e enfrentam a concorrência dos vídeo-designers, que já tinham seu espaço nas emissoras de televisão com produções para aberturas de programas, selos para telejornalismo e vinhetas. Para o cenógrafo José de Anchieta, um veterano na profissão, a tecnologia é a grande responsável pela migração do cenógrafo para as áreas de eventos e shows: "ele (computador) barateia muito o custo de um cenário porque não precisa de material nem de muita mão-de-obra. Acredito que o uso da computação gráfica diminua em até 90% o custo de um cenário" (Teixeira in Tela Viva, 1997: 57).


A falta de organismos estruturados que reunam os profissionais que estão no mercado para troca de informações e atualização; o reduzido número de cursos técnicos e disciplinas em escolas universitárias; e a carência de publicações em língua portuguesa que tratem do assunto, acabam levando o cenógrafo brasileiro a buscar o aprendizado e aperfeiçoamento na prática. A informação no campo cenográfico é coisa rara, e isso faz com que o cenógrafo brasileiro continue aprendendo com acertos e erros do dia a dia. Com isso, não é de se estranhar, que o surgimento da cenografia virtual apresente-se ainda como um campo desconhecido para o cenógrafo de televisivo.


Diante desta realidade, o vídeo-designer parece ter o perfil adequado para suprir esta necessidade no momento. Pois, mesmo desconhecendo os princípios básicos de linguagem e aproveitamento do espaço em três dimensões, faz uso dos elementos básicos da comunicação visual.


Porém não é só o mercado e profissionais que são afetados por estas mudanças. O próprio conceito de cenografia, que durante toda história da cenografia ocidental sofreu alterações devido a evolução tecnológica e adaptação a novos espaços, apresenta-se ainda mais confuso. A existência de diferentes conceitos cenográficos se deve a esta "mania" da cenografia de entrar em um espaço, reconhecê-lo em suas particularidades e adaptar-se a suas necessidades até adquirir uma linguagem própria deste sistema. Esta adequação por sua vez, leva a mudança em seu processo de desenvolvimento, escolha de materiais e técnicas de produção. O teatro tem uma linguagem própria, o que leva a utilização de técnicas e materiais próprios para sua linguagem, na mesma situação encontra-se a televisão e os outros campos de atuação cenográfica.


As fases de transição que fizeram com que a cenografia passasse de arte pictórica a arte plástica; a incorporação da luz elétrica como elemento comunicacional; o uso de paisagens naturais na fotografia em movimento do cinema; assim como, a fragmentação da imagem irradiada da televisão, levaram profissionais e teóricos a discutir o papel do cenário no espetáculo: sua relação com o espaço, com o ator e com o público. Hoje, a inexistência do espaço físico parece afastar a cenografia do seu parentesco mais próximo, as artes plásticas, "por existir apenas no tempo, inclusive no tempo real e presente, a imagem eletrônica é pura duração(...) guardando um parentesco muito maior com a música, estética por excelência da duração" (Machado, 1996: 55). Isto acaba levando a uma nova frente de debates sobre o conceito de cenografia.


Talvez as semelhanças entre as cenografias desenvolvidas para os diferentes espaços teatrais, cinema, televisão, ou computador, limitem-se apenas ao fato de todas serem uma forma de expressão comunicacional. Ou talvez, suas semelhanças sejam mais profundas, e esta transição, da cenografia corpórea para a virtual, não passe de um processo natural, como acredita Aldo Calvo: "o que mudou na atual cenografia foram os meios utilizados, pois o conceito continua o mesmo" (Calvo, 1989: 04).


O problema está em conceituar a cenografia virtual dentro deste universo: como uma forma diferente de representação do espaço e, até mesmo, um novo processo de comunicação, que necessita de profissionais preparados unicamente para esta nova linguagem ou, como uma forma de comunicação visual que sempre existiu e está em permanente evolução.


Neste momento, parece ser fundamental voltar o olhar para a evolução da cenografia na história; sua transição para diferentes espaços; e sua incorporação de novas descobertas tecnológicas, já que estas transformações levaram a mudanças conceituais, técnicas e práticas. Ao observar os caminhos traçados, pela cenografia, nos diferentes espaços de representação teatral, assim como, as dificuldades encontradas pelos pioneiros da cenografia no cinema e televisão, devido ao desconhecimento do novo meio, podemos ter uma melhor compreensão do momento que vivemos hoje.







O teatro

Nascida no século V a.C., na Grécia Antiga, a cenografia era a forma de representar os locais feita com pintura nas tendas, a skene, onde os atores trocavam de roupa e máscara. Daí a origem do nome "cenografia", do grego "skenographia", "que é composto de skené, cena, e graphein, escrever, desenhar, pintar, colorir" (Mantovani 1989: 13).


"As unidades de ação, lugar e tempo da tragédia grega, (...), simplificaram muito o problema da cenografia, que se bastava com fachadas de palácios, templos e tendas de campanha" (Magaldi 1965: 41). No entanto, antes da criação das skenes, nos Jogos Dionísios, o público se posicionava em torno do espetáculo, numa forma circular. Se considerarmos como sendo cenografia "um simples círculo de giz traçado em uma praça pública" (Garcia, 1989: catálogo), podemos concluir que, a confusão em relação ao conceito de cenografia não se deve apenas nas mudanças ocorridas nos novos meios em que se apresenta, mas também em sua própria origem, já que o espaço cenográfico teria nascido antes da criação da skene, ou seja, antes mesmo da própria criação da cenografia. De qualquer forma, como nos coloca Mariângela Lima, a palavra cenografia tem sido contestada devido a sua vinculação com o gráfico, do grego skenographia ao latim scenographia, o conceito não é aceito por cenógrafos que trabalham de forma integrada ao processo de construção de um espetáculo, não limitando-se, apenas, a elaboração do desenho (Lima, 1989: catálogo).


Na Idade Média vemos as primeiras transformações no conceito cenográfico. Para a representação dos dramas religiosos, o cenário era o interior da igreja, confundindo-se com a própria liturgia; passando em seguida ao pórtico dos templos, ao tornar-se drama semilitúrgico; e finalmente, passando as apresentações em praças públicas. Com esta última mudança, surge uma forma de representação até então nunca utilizada, o cenário simultâneo, "em que diversas indicações, muito sumárias, se justapunham ao longo de um estrado. Um simples portão sugeria uma cidade, uma pequena elevação simbolizava uma montanha, e assim por diante (...). Esse enquadramento permanente, encontrável nos mais diversos mistérios, revelava o profundo vínculo da cenografia com o espírito do texto" (Magaldi 1965: 41).


A dramaturgia clássica retornou aos princípios greco-romanos, e novamente, um só cenário prestava-se a todos os diálogos. As perspectivas sucessivas tiveram o objetivo de alargar ilusóriamente a dependência do palácio escolhida como cenário. Bramante, cenógrafo italiano, foi o criador do cenário em perspectiva, técnica esta, que foi apropriada das artes pictóricas do renascimento. "Bramante dióse cuenta que el escenario, apesar de sus dimensiones reducidas, debía contener edificios calles y plazas, bosques y campiñas. El nuevo arte resolvía el problema. Las líneas, convergentes todas a un punto situado en el centro del escenario creaban una ilusión de óptica que podía aprovecharse. Los edificios colocados en diversos planos y cada uno de ellos de tamaño más reducido que el precedente daban una exacta tercera dimensión al escenario" (Gener 1947: 229).


Dentro desta realidade surge o conceito de cenografia de Jacques Aumont, onde "cenografia é a arte de pintar os cenários da cena italiana"(Aumont, 1993: 229), definição esta que serve apenas a cenografia teatral em palco a italiana, que Van Tieghem apresenta-nos como sendo "uma concepção arquitetônica que separa a sala da área de representação por uma ribalta, que ilumina a cena sem iluminar a sala, e por uma boca de cena, que forma como que uma moldura a um quadro vivo"(Tieghem, 1964: 44). Esta definição de cenografia só pode, no entanto, ser aplicada ao "teatro profissional", que é classificado por Sourthen como sendo a terceira em uma evolução de sete fases do teatro, fase esta que surge no séc. XVI (Sourthen apud Amaral, 1996: 35).


Este termo técnico veio depois a designar, mais amplamente, "a arte de fixar cenários"(Aumont, 1993: 229).


O romantismo do final do século XIX, levou a cenografia ao seu realismo máximo. Para Émile Zola, cenografia é "uma descrição contínua que pode ser muito mais exata e impressionante do que a descrição realizada pelo romance" (apud Pavis 1999: 43), com isso o cenógrafo arquiteto é deposto em favor do pintor de paisagem.


No fim do século passado surge a luz elétrica, algo que deve ser ponderado no sentido de evolução da cenografia. A luz elétrica começa a mudar todo o contexto da elaboração cenográfica, e Adolphe Appia, escrevendo em 1921 A Obra de Arte Viva, foi o primeiro a discutir e a trabalhar a questão da iluminação elétrica. Para Appia a luz possui a qualidade de salientar a plasticidade do corpo humano. Sábato Magaldi observa que a luz apresenta-se como uma opção mais funcional: "A luz, seccionando espaços, no palco, e crescendo ou diminuindo de intensidade, pode funcionar sozinha como cenário(...)".A incorporação da eletricidade confirmou o lugar da cenografia na área arquitetônica. Stanilavski reproduz, em Minha Vida na Arte, um diálogo com o diretor e cenógrafo Gordon Craig, no qual lhe é repetida "uma incontestável verdade: o corpo do ator, abaulado como é, não fica bem ao lado da tela pintada, chata e sem relêvo; o palco exige a escultura, a arquitetura, o volume"(apud Magaldi 1965: 183).


"O conceito de cenografia começa a ser trabalhado e em menos de 50 anos muda completamente. Antes, o cenário era só uma decoração e, de repente, o cenário começa a ter uma importância muito grande"(Millaré, 1998: 03).


No entanto, as mudanças na cenografia nunca foram bem aceitas, mesmo a eletricidade, que tanto agitou a cena européia, e impulsionou concepções cenográficas, recebeu críticas. Acusando, em 1939, a luz de "principal causadora da inverdade da cenografia que ainda está em uso", o ensaísta Eduardo Victorino aponta as falhas de utilização da luz elétrica na iluminação do cenário, "a luz curva da eletricidade achata tudo, faz desaparecer os planos(...) as cores berram, mas não exprimem vida; tanto mais que a luz as imobiliza e lhes tira a idéia de movimento" (Modos Cenográficos, catálogo).


Incluindo projeção cinematográfica no palco, Erwin Piscator, revoluciona a cenografia, mudando mais uma vez o seu conceito, levando, assim, "para uma região que já não é a pintura, já não é a arquitetura, já não é a escultura e não é a sintese de tudo isso" (Millaré, 1998: 07). Para Sebastião Millaré a cenografia moderna deve ser analisada dentro do conceito de que ela não decora mais a cena. "Ela coloca elementos que não são o corpo, a voz e o gesto do ator, mas elementos que expressam uma idéia" (Millaré 1998: 07).


Entre as artes ditas "consagradas", o teatro serviu ao cinema tanto na escolha dos temas quanto da maneira de apresentação (Knight 1970, pp.9-13). Para Arthur Knight, o teatro preparava as platéias exatamente para o tipo de coisa que o cinema apresentaria melhor. "Nicholas Vardac, no seu livro Stage to Screen, frisou que o teatro do séc. XIX, nos Estados Unidos e na Inglaterra, contribuiu muito a fim de criar o que poderia se denominar de um ‘clima de aceitação’" (Knight 1970, p.9). No entanto, essa importância da tradição teatral, segundo Knight, é esquecida com freqüência no estudo do cinema.


A cenografia é um dos elementos da representação teatral que o cinema acabou por incorporar. A transição da cenografia, do espaço teatral para o cinematográfico, não se apresenta tão clara devido a natureza metamórfica desta forma de expressão. No cinema produzido na virada do século XX, vemos, em um dado momento, a utilização do cenário como cópia do teatro, e em outros, como uma nova forma de representação do espaço cênico. No entanto, podemos perceber que, em pouco tempo, houve uma adaptação da cenografia ao cinema; uma evolução até adquirir totalmente as características do novo meio e distanciar-se, conceitualmente e técnicamente, do seu espaço de origem.







O cinema

O cinema, por sua vez, deu possibilidades a cenografia que o teatro não permitia. Agora as paisagens reais poderiam ser cenários, como nos descreve Gerard Betton: "Os cenários podem ser reais (naturais)_ paisagens ou construções humanas_ ou construídos em estúdio ou ao ar livre_ com vistas a servir de ambiência para a ação" (Betton, 1987: 53). "E foi o ingrediente de realidade que deu ao cinema a sua primeira platéia e a novidade de se observarem coisas reais em movimento." (Knight, 1970: 12).


O cinema conseguiu com facilidade realizar os tipos de efeitos que pareciam impossíveis no teatro. Knight cita como exemplo a declaração de um crítico em 1899, sobre a corrida de bigas do espetáculo teatral Ben Hur apresentado nos Estados Unidos: "A única maneira de obter o exato sentido de ação desse acidente no teatro consiste em apresentá-lo com a invenção de Edson" (Knight, 1970: 11). Esta crítica ao falso naturalismo teatral é compreensível, pois a cenografia neste espaço não passa de uma convenção dentro do próprio mundo real, "não há duvida sobre a natureza artificial dos cenários de palco (...), o palco é, em essência, preparado para simbolizar ou sugerir um lugar real" (Stephenson, 1969: 144). Já o espaço cinematográfico é diferente, a principal característica da câmera é "ser capaz de nos dar uma reprodução fotográfica de locais autênticos, porções verdadeiras da natureza" (Stephenson, 1969: 144).


Além disto, para Christian Metz, o espetáculo teatral não consegue proporcionar ao espectador a impressão de realidade proporcionada pelo cinema pois, "há os intervalos, o ritual social, o espaço real do palco, a presença real do ator" (Metz, 1972: 23). Diante deste fato, segundo Knight, só restou ao teatro buscar outro caminho que não fosse o da representação naturalista (o do expressionismo e impressionismo), já que naquele momento era quase impossível manter o interesse do público diante da novidade das imagens reais em movimento do cinema (mesmo que, ainda, trêmulas sombras). Knight, em Uma História Panorâmica do Cinema, descreve a forma maravilhada com que alguns espectadores reagiram a nova arte: "quando as locomotivas trovejavam pelos trilhos e as ondas rolavam em direção a câmara, pessoas nas primeiras filas saiam correndo" (Knight, 1970: 12).


Contudo, apesar de sua tendência para o cenário natural, o cinema viu surgir, em pouco tempo, os complicados cenários teatrais de Méliès que, se para Stephenson, "provaram ser um beco sem saída" (Stephenson, 1969: 145), para Knight foi a salvação do cinema (Knight, 1970: 13).


Georges Méliès, pintor e mágico profissional, combinava números de mágica com estórias de pantomima onde, freqüentemente, desenhava cenários que "constituíam milagres de engenhosidade, sugerindo, através de perspectiva distorcida, vastos panoramas a despeito de dispor apenas de um minúsculo palco" (Knight, 1970: 13). A cenografia de Méliès era composta de telas pintadas, como é descrito por Georges Sadoul em El Cine, Su História e Su Técnica: "(...)con simples telas pintadas y puestas sobre un muro(...)sobre la tela pintaba efectos visuales como los del teatro" (Sadoul, 1950: 115).


Assim como Sadoul, Knight vê uma forte influencia do teatro sobre o cinema de Méliès (como em tantos de seus contemporâneos). Palcos com estrutura teatral eram especialmente equipados para os truques que viriam a ser apresentados na tela. "No A Trip to the Moon (Voyage dans la lune), por exemplo, a fim de criar efeito de um foguete em vôo, Méliès rebocou um modelo em papiér-maché da Lua por sobre uma rampa complexa em direção a câmara, situada em plano superior (...). Tudo acontecia em seus filmes da mesma maneira que no palco (...). Até mesmo no truque de fundir uma cena na outra, Méliès adaptou técnicas teatrais existentes (...)" (Knight, 1970: 13).


Também como no teatro, os atores entravam em cena vindos dos bastidores, e este deslocamento do ator, para dentro ou para fora do cenário, é que compunha o quadro, e não os movimentos da câmera, que geralmente não se movia _"fixa e a uma certa distância da cena, de modo a abraçá-la por inteiro, num recorte que hoje chamaríamos de ‘plano geral’" (Machado, 1997: 92). Com o eixo frontal da câmera perpendicular ao cenário, a ação era desenvolvida horizontalmente no palco, o que levava a um ponto de vista definido por Sadoul como o "cavalheiro da platéia", ou como é conhecido no teatro renascentista "o local do príncipe", que corresponde ao ponto de vista de um espectador sentado mais ou menos no meio de uma sala de teatro, que vê a cena por inteiro, "desde a abóboda até a rampa, e cuja localização ideal faz dirigirem-se as linhas de fuga a um ponto no fundo e no meio do cenário" (Machado, 1997: 92-93).


Apesar da similaridade do espaço cinematográfico de Méliès com o espaço teatral, Arlindo Machado identifica no sistema de representação deste período uma maior influência das formas populares de culturas provenientes da Idade Média ou épocas imediatamente posteriores, que própriamente das formas artísticas eruditas dos séculos XVIII e XIX, como o teatro. "A iconografia de Méliès (...), deriva diretamente das gravuras populares, das imagens de Épinal, de modelos iconográficos não-europeus e de toda a tradição pictórica da Idade Média, donde a estilização e o grafismo naïf, o desprezo total pelas convenções da perspectiva renascentista e pelas regras do naturalismo plástico (...). Essa diferença de concepção do espetáculo (estilização, naturalismo) e de método de trabalho (mudança da escala do cenário e não da posição da câmera) dá-nos hoje, a nós espectadores viciados no naturalismo do cinema que se seguiu a Méliès, uma impressão de "teatralidade" que provavelmente os contemporâneos daquele cineasta não tinham" (Machado, 1997: 80-94).


Em 1903, com o lançamento de The Great Train Robbery de Edwin S. Porter, surge o que seria o modelo de cinema que conhecemos hoje, indicando um estilo definitivamente cinematográfico e uma total adequação da cenografia ao novo meio. "Todos os interiores, a cena inicial da cabine do telegrafista, o assalto ao vagão postal, a pândega violenta no bar, foram filmadas como em um teatro, figurando a câmara novamente como observador bem colocado. Mas logo que Porter a tirou do estúdio, onde toda a ação podia ser controlada, foi forçado a usar artifícios que focalizavam a cena de ângulos que exigiam que câmara se aproximasse dos atores e que estes entrassem de trás e saíssem em direção à objetiva" (Knight, 1970: 15).


As câmeras não se mantinham mais presas dentro dos estúdios: cenas rodadas em locação eram combinadas com outras encenadas diante de cenários pintados. E neste momento a cenografia cinematográfica supera a cenografia teatral, da qual se apoderara no momento do nascimento do cinema, "la combinacion del aire libre y el estúdio obliga a los escenógrafos a obtener un realismo mayor que el del teatro" (Sadoul, 1950: 115-116).


Neste momento de transformações no universo cenográfico, onde o cenário do espetáculo teatral assume a tarefa não mais de ilustrar o texto dramático, mas sim, de estabelecer-se como um dispositivo próprio para esclarecimento deste, o exibicionismo do cinema, em outra direção, faz eco a declaração de Copeau em crítica ao cenário: "Simbolista ou realista, sintético ou anedótico, o cenário é sempre um cenário: uma ilustração." (apud Pavis, 1999: 43). Contudo, a evolução do cinema acabou dando origem ao que podemos chamar hoje de cenografia cinematográfica.


A televisão, assim como o cinema, acabou por incorporar elementos dos meios já estabelecidos. Em seu início fez uso de cenários teatrais, até a invenção do vídeo-tape, onde aproximou-se da linguagem cinematográfica. No entanto, novamente como o cinema, vem adquirindo, nos últimos anos, características próprias, distanciando-se, conceitualmente e técnicamente de seus antecessores.







A televisão

Na primeira metade do século XX surge a televisão. No início a cenografia é pouco valorizada neste meio. Segundo William Bluem, para se produzir um spot de 20 segundos de duração, era composta uma equipe de dezesseis profissionais (Gerente de Operações, Artista, Locutor, entre outros). Nesta equipe não havia um cenógrafo, que só seria solicitado (com o nome de "Supervisor de Estúdio") caso o spot fosse ao vivo (Bluem, 1965: 64). O supervisor de estúdio era um faz tudo, misto de cenógrafo, cenotécnico e contra-regra. Rubens Barra, cenógrafo da antiga TV Paulista, que mais tarde viria a ser TV Globo, conta que "naquele tempo o cenógrafo era o "arquiteto" de todo o cenário: desenho, construção, e depois o mobiliário, os enfeites, toda a contra-regra" (Barra, 1998 in www.televisaobrasil.com.br).


Em 18 de setembro de 1950 é inaugurada a TV Tupi Difusora de São Paulo. Marlene Morel, uma das primeiras garotas propagandas da televisão brasileira, lembra que "(...)o cenário não existia. O diretor colocava uma tapadeira ao fundo com o logotipo do anunciante(...)" (Falgetano e Rosa Jr. in Tela Viva, 2000: 18). Para Cyro del Nero, cenógrafo da extinta TV Excelsior, naquele tempo havia "uma inexperiência dos dois lados: a empresarial e a artística (...) havia uma discrepância de possibilidades(...)" (Buriti, 1996: 51).


Em 21 de dezembro de 1951 estréia na Tupi a primeira telenovela brasileira, Sua Vida me Pertence, de Walter Foster. "O unitário surgiu no Brasil como uma peça de teatro levada ao ar pela televisão ao vivo" (Pallottini, 1998: 25). Renata Pallottini conta que, no princípio, não se via nas telenovelas o realismo que vemos hoje, devido "a precariedade do material utilizado no cenário". A evolução no processo de construção dos cenários e a criação do vídeo-tape proporcionaram, a partir deste gênero, o maior realismo já visto na televisão.


Na segunda metade do século a televisão começa a fazer uso do vídeo-tape. "(...)com os recursos possibilitados pelos editores eletrônicos e pelas câmeras portáteis, (a televisão) vai perdendo amarras nos 60, adquirindo um ritmo mais próximo ao cinema" (Ortiz, 1989: 123). "Se antigamente, devido à precariedade da televisão brasileira, a imagem possuía uma dimensão metafórica, atualmente ela tende a descrever o real de uma forma mais fotográfica." (Ortiz, 1989: 140). Assim como Renato Ortiz, Patrice Pavis acredita que, com isso, a televisão se afasta cada vez mais do modo de produção teatral, aproximando-se do trabalho cinematográfico (Pavis, 1999: 397).


No entanto é bom ressaltar que apesar de sua linguagem de base, "composição e montagem de imagens." (Pignatári, 1984: 14), ser a do cinema, "o quadro videográfico tende a ser mais estilizado, mais abstrato e, por consequência, bem menos realista do que seus ancestrais (...)" (Machado, 1997: 194), e isto se deve a própria natureza da imagem eletrônica.


"A terceira fase da televisão, ainda falando em termos do impacto da tecnologia sobre os meios de expressão, se dá em meados dos anos 70, quando os recursos da informática começam a ser introduzidos com ênfase cada vez maior, primeiro na automação dos trabalhos, depois no próprio processamento da imagem" (Machado, 1995: 158). E neste momento ocorrem as primeiras transmissões em cores. "O advento da televisão a cores criou novas oportunidades para cenógrafos e figurinistas". (Stasheff, 1978: 99). Com relação ao uso de cores nos cenários Nero conta que: "(...)durante todo o tempo que nós estivemos na Excelsior, nós desenhamos mil e uma vezes os cinzas correspondentes as cores em cartões. Era uma preocupação constante, saber o resultado das cores. E é um negócio realmente sem fim, por que não havia meios, naquele momento de medir a luminância das cores (...)" (apud Buriti, 1996: 52).


Como pudemos observar, "o vídeo é um sistema híbrido; ele opera com códigos significantes distintos, parte importados do cinema, parte importados do teatro (...)" (Machado, 1997: 190). As técnicas e materiais utilizados na construção dos cenários, foram adquiridos no teatro, "os cenários reconstituídos em estúdio ficaram próximos ao da estilização teatral" (Pavis, 1999: 398). Já o uso de cenários naturais veio do cinema, das condições proporcionadas pela edição. "A gravação em externas forneceu um quadro próximo ao cinema, e o efeito de real se impôs, em detrimento da clareza e da estilização." (Pavis, 1999: 398).


Para J.C. Serroni, arquiteto cênico e cenógrafo, a luz, as sombras e o desenho da perspectiva se equivalem, tanto na televisão como no teatro. "A diferença talvez esteja na escala de construção cenográfica. A escala das cidades cenográficas da televisão é uma escala real, com igrejas, ruas, casas, praças, etc. No teatro, por sua vez, se possui uma caixa de palco de doze metros por quinze metros de profundidade com oito metros de altura, por exemplo" (Serroni in Burini, 1996: 44).


Para Peter Gasper, editor da revista Luz & Cena, a diferença da cenografia teatral para a televisiva se deve ao fato que no teatro a "cenografia é vista a partir de uma intenção do cenógrafo (...). Em televisão não é bem assim. A decisão do que será visto pelo público é função do diretor de imagem (diretor de TV, diretor de corte ou, simplesmente, cortador)" (Gasper in Luz & Cena, 2000: 04). Outro problema apontado por Serroni é que a televisão limita a criação cenográfica, devido ao IBOPE -Instituto Brasileiro de Opinião Pública- (Burini, 1996: 41). Contudo, Serroni acredita que a televisão é um meio de muitas possibilidades, "o que ocorre é o mal uso dela" (Burini, 1996: 42), e sendo assim, conclui que "cada meio, seja o teatro, o cinema, ou a televisão, não são passíveis de comparação entre si, pois cada um é um" (Burini op cit).


Com relação a estrutura dos primeiros cenários utilizados na televisão, de uma forma geral, se resumiam a composição de poucos elementos cênicos como: cortinas; cicloramas; fundo infinito; tapadeiras e outras unidades modulares (Stasheff, 1978: 213-216), passando posteriormente a projeções e inserções de imagens virtuais.


Para Eugeni, podemos determinar as diferentes configurações estruturais do espaço televisivo em função da: tipologia do cenário, onde teremos um espaço central que pode ser único (como em certos programas de entrevistas), dividido em módulos (como nas telenovelas onde diferentes ambientes constituem o espaço de ação), externos que se conectam ao central (no caso de telejornais, onde a equipe de comentaristas se apresenta em diferentes espaços que entram em conexão com o espaço dos apresentadores), ou, ainda, externos de natureza diferente do central (como nas conexões entre estúdio e locações reais); modalidade de conexão entre estes módulos espaciais (como a inserção de um espaço em outro ou a justaposição de espaços); sua dinâmica (onde a transformação do cenário pode acontece diante da platéia e das câmeras) (Casetti e Chio, 1999: 254-275). Já a definição do estilo do cenário se deve: a disposição dos elementos arquitetônicos e cenográficos (fundo neutro, desenho, fotografia, logotipo, mobiliário, et.); a escolha das cores (tons quentes e frios, harmonia e contraste, predominância de cores, etc.); a aplicação das luzes (disposição, direção, valores cromáticos, etc.); e as características das superfícies (materiais utilizados, relação com fontes luminosas, texturas, etc.) (Casetti e Chio, 1999: 254).


O estilo e a estrutura do cenário também sofrem influência da própria natureza da imagem do vídeo, ou seja, do modo como a imagem eletrônica se manifesta. A composição de uma imagem videográfica se deve a uma combinação de pontos de luz, "cerca de duzentos mil pontos de luz que preenchem a tela compondo 525 linhas (no padrão americano e na sua adaptação brasileira) ou 625 linhas (no padrão europeu) (...)." (Machado, 1995: 43). Esta forma de reprodução impõe limitações a imagem videográfica, e isto já basta para estabelecer profundas diferenças em relação a imagem cinematográfica. "(...) numa topografia estilhaçada como essa, (...) a profundidade de campo é sempre precária, porque a partir de um certo nível de afastamento do primeiro plano (foreground) as figuras tendem a se desmaterializar e a se confundir com as retículas." (Machado, 1995: 46).


Com isso, a imagem do vídeo "trata-se de uma imagem inadequada para anotar informações abundantes, uma imagem que não aceita detalhamentos minuciosos (...). O vídeo é uma tela de dimensões pequenas, entendendo-se por tal uma tela em que se pode colocar pouca quantidade de informação, já que há sempre o perigo de que uma imagem demasiado abundante se dissolva na chuva de linhas de varredura.(...) são inadequados os cenários amplos e as decorações muito minuciosas, pois todos esses motivos se reduzem a manchas disformes quando inseridos na pequena tela. Em decorrência da baixa definição da imagem videográfica, a maneira mais adequada e mais comunicativa de trabalhar com ela é pela decomposição analítica dos motivos" (Machado, 1997: 193-194). Daí o motivo de vermos apenas fragmentos dos cenários por trás dos atores. "A imagem eletrônica, por sua própria natureza, tende a se configurar sobre a figura da sinédoque, em que a parte, o detalhe e o fragmento são articulados para sugerir o todo, sem que esse todo entretanto, possa jamais ser revelado de uma só vez. (...) os cenários não podem parecer excessivamente realistas nem ostentar preenchimentos minuciosos; eles devem apontar para síntese ou para o esquema. Em resumo, podemos dizer que o vídeo tende a operar uma limpeza dos "códigos" audiovisuais, até reduzir a figura ao seu mínimo significante" (Machado, 1997: 194). Frente a estas imposições, "o cenógrafo, por sua vez, deverá assegurar-se de que o cenário permitirá a enquadração adequada, com fundos interessantes para o diretor." (Stasheff, 1978: 86).


"A miniaturização da imagem provoca uma importância maior da banda sonora" (Pavis, 1999: 398), fazendo do vídeo, consequentemente, um meio com maior afinidade aos signos sonoros que visuais. Devido a isso, a cenografia na televisão perde em força quando comparada ao teatro, onde mantém alto valor estético e expressivo.


O outro ponto a ser levantado, é o fato de percebermos, na televisão, um número maior de configurações de espaço e uma maior variedade de estilos, se comparada ao cinema, onde, a grande maioria dos espaços de representação se resume ao estilo naturalista em uma tipologia, estática, de conexão entre espaços "reais" (locações) e espaços "construídos" (estúdios). Isto se deve a quantidade de gêneros existentes na televisão. Estes gêneros são inúmeros , mas são percebíveis e classificáveis.


Vale ressaltar que a determinação da composição e estilo cenográfico em função dos gêneros e da fragmentação da imagem, apontadas aqui, são tendências que podem ser observadas na televisão, mas de modo algum se configuram em leis nas quais os profissionais do meio devem se subordinar. Como bem lembra Arlindo Machado, "um plano geral, excessivamente aberto, não é considerado uma boa imagem no vídeo, porque tende a desmaterializar as figuras que estão representadas, mas se o videasta visa justamente produzir um efeito de despersonalização das figuras, o recurso é perfeitamente cabível." (Machado, 1997: 190). Além do que, "tentar estabelecer uma especificidade para um meio como o vídeo (...), acrescido de uma enorme capacidade de transmutação plástica, poderia se correr no erro de se almejar uma pureza que este meio não possui" (Santaella, 1992: 24).


Contudo, "se a televisão mostra a intenção de seguir a tradição figurativa (...), ela deve se satisfazer então como uma única via de acesso à figura: a decomposição analítica dos motivos, o desmembramento da cena numa série de detalhes indiciadores de sua totalidade." (Machado, 1995: 48).


No entanto, o cuidado que deve-se tomar é que, a televisão, nos últimos anos, vem sofrendo drásticas transformações, e essas transformações, com certeza, irão levar a cenografia a novas mutações em suas estruturas e estilos. Até então, não existe nenhum indício de mudança nos modelos de gêneros utilizados em seu repertório, mas com relação a qualidade da imagem videográfica, a HDTV e o cenário virtual já começam a mostrar novidades no mundo cenográfico.

O cenário virtual


O uso da informática abriu novos caminhos para a evolução cenográfica. Imagens vistas nos monitores de televisão em casa não são mais compartilhadas pelas pessoas que estão no local no momento da gravação, "trata-se agora de um realismo conceptual, construído com modelos que existem na memória do computador e não no mundo físico" (Machado, 1996: 135). Estes efeitos que antes eram parte do cenário foram crescendo até os dias de hoje onde, em alguns programas são quase a totalidade, senão, o cenário por inteiro.


O cenário virtual se apresenta como uma possibilidade viável pois, ao mesmo tempo em que faz a composição dos atores ou apresentadores, como os cenários tradicionais, vem resolver o problema da área física do estúdio que, em algumas emissoras, se apresenta como empecilho para os cenógrafos, além de se mostrar mais prático e rápido no momento da criação, produção, manutenção, transporte, instalação e armazenamento, acrescido a isto, o menor custo com material e mão de obra.


O problema ainda encontrado na cenografia virtual está na artificialidade das texturas da matéria virtual, "ainda não é "suja" o suficiente. O fundo tem muito mais definição que o ator, e ainda tem foco infinito _o que não ocorre nos cenários normais_ com aquela cara de computação gráfica." (Possebon apud Burini, 1996: 234).


Junto as vantagens apresentadas pela cenografia virtual, a televisão vive profundas mudanças com o surgimento da TV de alta definição. A partir de 1989, no Japão, muitas experiências em HDTV têm sido feitas no mundo. A formatação da imagem HDTV no Brasil será de 1080 linhas verticais ativas x 1920 linhas horizontais de resolução. O resultado será uma tela 30% maior no tamanho horizontal que as dos aparelhos atuais, que passará da proporção de 4:3 para 16:9.


"A tela com maior quantidade de linhas permitirá ao telespectador uma visão ótima, a uma distância menor. (...). Pelo aumento da quantidade de linhas, a imagem será muito mais nítida, a uma distância igual ao dobro da diagonal do televisor. Teremos uma sensação bastante realista, uma visão perfeita, sem a interferência das linhas de um televisor atual. Hoje a HDTV é digital e tem uma resolução de aspecto equivalente ao filme de 35mm." (Pace in Lume, 2000: 48-52).


A cenografia terá que adaptar-se a este novo formato e terá como grande desafio o aperfeiçoamento da qualidade. "Na cenografia, um pequeno defeito de junção de um cenário ou uma pintura mal acabada serão drasticamente notados, pois a nitidez da imagem, aliada à profundidade de campo tremendamente aumentada, por certo denunciará estas falhas" (Pace in Lume, 2000: 54-55). Dentro das imposições da HDTV, a cenografia virtual apresenta-se como a melhor opção nesta transformação da televisão, tanto no momento de transição do atual aparelho para a HDTV, onde será necessário uma adaptação as diferentes proporções da tela, como na qualidade de acabamento neste novo sistema. Novas composições estruturais deverão surgir com as possibilidades criadas pelo espaço virtual assim como novos estilos em função da melhora da qualidade de imagem pela HDTV ou pela limitação de texturas da matéria virtual. E a cenografia, dentro deste contexto, como não poderia deixar de ser, continuará em sua natural evolução.


Para finalizar, dentro de um meio de tão forte penetração, como é a televisão, não poderiamos deixar de tratar do principal papel da cenografia, a questão do significado. Para Décio Pignatari, "cenografia não é apenas um signo que denota e conota um ambiente e/ou uma época, ou que informa um espaço, configurando-o: a boa cenografia é a que participa também da ação narrativa, que não é apenas algo externo a ação, decorativamente, mas que se identifica até com o estado psicológico dos personagens ou o ambiente da cena. Como o nome está dizendo, a cenografia é uma escritura da cena, é uma escrita não-verbal, icônica, que deve imbricar-se nos demais elementos dramáticos, trágicos ou cômicos." (Pignatari, 1984: 72). Com isso, "(...) el espacio representado contribuye a definir no sólo la identidade visual del programa, sus contenidos y sus géneros, sino también las modalidades através de las que se comunica com el receptor y, por tanto, el papel que se asigna a este último. A partir de aquí se produce un salto de nível, pues el modelo de representación espacial adoptado por las transmisiones televisivas sirve para orientar los saberes, los valores y las creencias del espectador, es decir, para definir la relación comunicativa." (Casetti e Chio 1999: 278-279).


Deste modo, a cenografia, é um instrumento de realizações lingüísticas e comunicativas, "es decir, construcciones propiamente dichas, que trabajan a partir de material simbólico (signos, figuras y símbolos presentes en el léxico de una comunidad), (...), y producen determinados efectos de sentido (conviven com la "realidad" o la "irrealidad" de cuanto dicen, etc.). En definitiva, no nos enfrentamos com "vehículos" neutros que "llevan" algo, sino com objetos dotados de consistencia e autonomía própias." (Casetti e Chio 1999: 249).


Esta fase de transição, por que passa a cenografia hoje, é provavelmente a última do século e talvez a que apresente maiores mudanças em toda sua história. A união do computador a televisão já é uma realidade. "A televisão vem sofrendo transformações substanciais ao longo de sua história, tanto a nível de suporte tecnológico (hardware) como dos recursos de linguagem (software)" (Machado, 1995: 157). E, a cenografia com certeza irá beneficiar-se destes recursos de linguagem.


Tratando do desenvolvimento acelerado da televisão em seu sistema de transmissão, Nelson Hoineff, acaba por antever o futuro da cenografia neste meio: "O mais poderoso meio de comunicação inventado pelo homem está em rápida transformação. Tecnologias revolucionárias(...)promovem uma alteração tão grande nos meios de produção que já nem se pode dizer com certeza que a televisão da próxima década seja o mesmo veículo que conhecemos hoje" (Hoineff , 1991: 33).


Surgem as primeiras questões neste momento: A transição, da perspectiva por construção corpórea (que utiliza serviços de marcenaria, serralharia, tapeçaria, pintura entre outras formas de trabalhos manuais) para a construção virtual (que conta apenas com os recursos da informática para sua produção final) é uma evolução natural dos elementos comunicacionais que compõem a cenografia ou uma nova forma de comunicação visual? Esta transformação fará com que o cenógrafo, que por natureza é um generalista, incorpore no desenvolvimento de seus projetos a tecnologia oferecida pela informática ou, criará uma nova forma de representação do espaço e, com isso, abrirá para o vídeo-designer ou outro profissional de comunicação visual um novo campo de atuação?


Para responder a essas perguntas iniciais será preciso conhecer a atual situação da cenografia virtual no Brasil; saber como o cenógrafo da televisão assiste a esta transição. Para conhecer a atual situação da cenografia virtual no Brasil, será preciso saber qual é a formação deste cenógrafo virtual, quais os recursos que estão a disposição destes profissionais e em que outras formas de representações hipermidiáticas já foram utilizadas.


Será preciso verificar como os profissionais envolvidos na criação, utilização e confecção de cenários, na atualidade, estão vendo o uso da tecnologia oferecida pelo computador na elaboração e confecção do cenário. E, como os profissionais no passado receberam mudanças como, a técnica da perspectiva no desenho cenográfico, o uso da luz elétrica como elemento cenográfico ou o início da construção corpórea.


Ainda será preciso definir esta nova forma de representação do espaço, considerando como sendo espaço "a capacidade ilimitada de receber corpos" (Barraco, 1976: 13), recorrendo a antigos conceitos, que passaram por reformulações com a evolução da cenografia. Para isso será necessário identificar os marcos de transição para saber como estes conceitos foram afetados por mudanças como, na transição das instalações em espaços abertos para as salas fechadas e depois para a transmissão irradiada, e como estes conceitos podem ser enquadrados na representação virtual.


A história da cenografia indica a necessidade de preparar o cenógrafo atual para esta nova fase de transição; apontar caminhos para aqueles que estão no mercado antes do aparecimento do computador; adaptá-los a esta realidade; apresentar as ferramentas que estão a sua disposição no momento. Ainda há tempo de discutir com os vídeo-designers, que aventuram-se neste mundo, que conceito utilizar na elaboração desta nova forma de representação do espaço e, como utilizar de forma adequada os elementos comunicacionais que se apresentam.


Quando for definido o perfil do profissional que estará preparado para desenvolver projetos cenográficos virtuais; que habilidades e conhecimentos deve ter; como fazer uso das técnicas e materiais; e, em que conceito enquadrar esta nova forma de representação do espaço, então, só ai, teremos o cenógrafo virtual.

Referências bibliográficas

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sábado, 19 de novembro de 2011

MATERIAIS DE REAPROVEITAMENTO NA MODA

ROUPAS FEITAS COM MATERIAIS DE REAPROVEITAMENTO

Vestido para bailarina criado pelo estilista Ederson Venturas.
Este vestido participou de um editorial de moda onde todas as peças foram produzidas com materiais recicláveis, com a proposta de conscientizar a população sobre a importância da reciclagem - Luxo!




Roupas de Materiais de reaproveitamento...  criadores anômimos

















quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Livro: O Pequeno Príncipe


O PEQUENO PRÍNCIPE

O livro está disponível aqui sem as ilustrações, mas você pode baixar o livro completo gratuitamente no link http://www.4shared.com/file/12941932/aa0e0acf/O_Pequeno_Principe-_Antoine_De_Saint-Exupry.html




A LÉON WERTH

Peço perdão às crianças por dedicar este livro a uma pessoa grande. Tenho uma

desculpa séria: essa pessoa grande é o melhor amigo que possuo no mundo. Tenho uma

outra desculpa: essa pessoa grande é capaz de compreender todas as coisas, até mesmo os

livros de criança. Tenho ainda uma terceira: essa pessoa grande mora na França, e ela tem

fome e frio.

Ela precisa de consolo. Se todas essas desculpas não bastam, eu dedico então esse

livro à criança que essa pessoa grande já foi. Todas as pessoas grandes foram um dia

crianças (mas poucas se lembram disso). Corrijo, portanto, a dedicatória:

A LÉON WERTH

QUANDO ELE ERA PEQUENINO


I


Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, "Histórias

Vividas", uma imponente gravura. Representava ela uma jibóia que engolia uma fera. Eis

a cópia do desenho.

Dizia o livro: "As jibóias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, não

podem mover-se e dormem os seis meses da digestão."

Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz, com lápis de cor, o meu

primeiro desenho. Meu desenho número 1 era assim:

Mostrei minha obra-prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes

fazia medo.

Responderam-me: "Por que é que um chapéu faria medo?"

Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um

elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem

compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações. Meu desenho número 2 era

assim:

As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas

ou fechadas, e dedicar-me de preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática.

Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora

desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As

pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar

toda hora explicando.

Tive pois de escolher uma outra profissão e aprendi a pilotar aviões. Voei, por

assim dizer, por todo o mundo.

E a geografia, é claro, me serviu muito. Sabia distinguir, num relance, a China e o

Arizona. É muito útil, quando se está perdido na noite.

Tive assim, no correr da vida, muitos contatos com muita gente séria. Vivi muito

no meio das pessoas grandes.

Vi-as muito de perto. Isso não melhorou, de modo algum, a minha antiga opinião.

Quando encontrava uma que me parecia um pouco lúcida, fazia com ela a

experiência do meu desenho número 1, que sempre conservei comigo. Eu queria saber se

ela era verdadeiramente compreensiva. Mas respondia sempre: "É um chapéu". Então eu

não lhe falava nem de jibóias, nem de florestas virgens, nem de estrelas. Punha-me ao seu

alcance. Falava-lhe de bridge, de golfe, de política, de gravatas. E a pessoa grande ficava

encantada de conhecer um homem tão razoável.


II


Vivi portanto só, sem amigo com quem pudesse realmente conversar, até o dia,

cerca de seis anos atrás, em que tive uma pane no deserto do Saara. Alguma coisa se

quebrara no motor. E como não tinha comigo mecânico ou passageiro, preparei-me para

empreender sozinho o difícil conserto. Era, para mim, questão de vida ou de morte.

Só dava para oito dias a água que eu tinha.

Na primeira noite adormeci pois sobre a areia, a milhas e milhas de qualquer terra

habitada. Estava mais isolado que o náufrago numa tábua, perdido no meio do mar.

Imaginem então a minha surpresa, quando, ao despertar do dia, uma vozinha

estranha me acordou. Dizia:

- Por favor ... desenha-me um carneiro

- Hem!

- Desenha-me um carneiro ...

Pus-me de pé, como atingido por um raio. Esfreguei os olhos. Olhei bem. E vi um

pedacinho de gente inteiramente extraordinário, que me considerava com gravidade.

Eis o melhor retrato que, mais tarde, consegui fazer dele.

Meu desenho é, seguramente, muito menos sedutor que o modelo. Não tenho

culpa. Fora desencorajado, aos seis anos, da minha carreira de pintor, e só aprendera a

desenhar jibóias abertas e fechadas.

Olhava pois essa aparição com olhos redondos de espanto. Não esqueçam que eu

me achava a mil milhas de qualquer terra habitada. Ora, o meu homenzinho não me

parecia nem perdido, nem morto de fadiga, nem morto de fome, de sede ou de medo. Não

tinha absolutamente a aparência de uma criança perdida no deserto, a mil milhas da região

habitada. Quando pude enfim articular palavra, perguntei-lhe:

- Mas ... que fazes aqui?

E ele repetiu-me então, brandamente, como uma coisa muito séria:

- Por favor... desenha-me um carneiro ...

Quando o mistério é muito impressionante, a gente não ousa desobedecer. Por mais

absurdo que aquilo me parecesse a mil milhas de todos os lugares habitados e em perigo

de morte, tirei do bolso uma folha de papel e uma caneta.

Mas lembrei-me,então,que eu havia estudado de preferência geografia, história,

cálculo e gramática, e disse ao garoto (com um pouco de mau humor) que eu não sabia

desenhar. Respondeu-me:

- Não tem importância. Desenha-me um carneiro.

Como jamais houvesse desenhado um carneiro, refiz para ele um dos dois únicos

desenhos que sabia. O da jibóia fechada. E fiquei estupefato de ouvir o garoto replicar:

- Não! Não! Eu não quero um elefante numa jibóia. A jibóia é perigosa e o elefante

toma muito espaço. Tudo é pequeno onde eu moro. Preciso é dum carneiro. Desenha-me

um carneiro.

Então eu desenhei.

Olhou atentamente, e disse:

- Não! Esse já está muito doente.

Desenha outro.

Desenhei de novo.

Meu amigo sorriu com indulgência:

- Bem vês que isto não é um carneiro. É um bode ... Olha os chifres ...

Fiz mais uma vez o desenho.

Mas ele foi recusado como os precedentes:

Este aí é muito velho. Quero um carneiro que viva muito.

Então, perdendo a paciência, como tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o

desenho ao lado.

E arrisquei:

Esta é a caixa. O carneiro está dentro.

Mas fiquei surpreso de ver iluminar-se a face do meu pequeno juiz:

- Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito capim para esse carneiro?

Por quê?

Porque é muito pequeno onde eu moro ...

- Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de nada !

Inclinou a cabeça sobre o desenho:

- Não é tão pequeno assim ... Olha ! Adormeceu ...

E foi desse modo que eu travei conhecimento, um dia, com o pequeno príncipe.


III


Levei muito tempo para compreender de onde viera.

O principezinho, que me fazia milhares de perguntas, não parecia sequer escutar as

minhas. Palavras pronunciadas ao acaso e que foram, pouco a pouco, revelando tudo.

Assim, quando viu pela primeira vez meu avião (não vou desenhá-lo aqui, é muito

complicado para mim), perguntou-me bruscamente:

Que coisa é aquela?

Não, é uma coisa. Aquilo voa. É um avião. O meu avião.

Eu estava orgulhoso de lhe comunicar que eu voava. Então ele exclamou:

- Como? Tu caíste do céu?

- Sim, disse eu modestamente.

- Ah ! como é engraçado...

E o principezinho deu uma bela risada, que me irritou profundamente. Gosto que

levem a sério as minhas desgraças. Em seguida acrescentou:

Então, tu também vens do céu ! De que planeta és tu?

Vislumbrei um clarão no mistério da sua presença, e interroguei bruscamente:

- Tu vens então de outro Planeta?

Mas ele não me respondeu. Balançava lentamente a cabeça considerando o avião:

- É verdade que, nisto aí, não podes ter vindo de longe ...

Mergulhou então num pensamento que durou muito tempo. Depois, tirando do

bolso o meu carneiro, ficou contemplando o seu tesouro.

Poderão imaginar que eu ficara intrigado com aquela semiconfidência sobre "os

outros planetas". Esforcei-me, então, por saber mais um pouco.

- De onde vens, meu bem? Onde é tua casa? Para onde queres levar meu carneiro?

Ficou meditando em silêncio, e respondeu depois:

O bom é que a caixa que me deste poderá, de noite, servir de casa.

- Sem dúvida. E se tu fores bonzinho, darei também uma corda para amarrá-lo

durante o dia. E uma estaca.

A proposta pareceu chocá-lo:

Amarrar? Que idéia esquisita

- Mas se tu não o amarras, ele vai-se embora e se perde...

E meu amigo deu uma nova risada:

- Mas onde queres que ele vá?

- Não sei ... Por aí ... Andando sempre para frente.

Então o principezínho observou, muito sério:

- Não faz mal, é tão pequeno onde moro !

E depois, talvez com um pouco de melancolia, acrescentou ainda:

- Quando a gente anda sempre para frente, não pode mesmo ir longe ...


IV


Eu aprendera, pois, uma segunda coisa, importantíssima: o seu planeta de origem

era pouco maior que uma casa!

Não era surpresa para mim. Sabia que além dos grandes planetas - Terra, Júpiter,

Marte ou Vênus, aos quais se deram nomes há centenas e centenas de outros, por vezes

tão pequenos que mal se vêem no telescópio.

Quando o astrônomo descobre um deles, dá-lhe por nome um número.

Chama-o, por exemplo: "asteróide 3251".

Tenho sérias razões para supor que o planeta de onde vinha o príncipe era o

asteróide B 612. Esse asteróide só foi visto uma vez ao telescópio, em 1909, por um

astrônomo turco.

Ele fizera na época uma grande demonstração da sua descoberta num Congresso

Internacional de Astronomia. Mas ninguém lhe dera crédito, por causa das roupas que

usava. As pessoas grandes são assim.

Felizmente para a reputação do asteróide B 612, um ditador turco obrigou o povo,

sob pena de morte, a vestir-se à moda européia. O astrônomo repetiu sua demonstração

em 1920, numa elegante casaca. Então, dessa vez, todo o mundo se convenceu.

Se lhes dou esses detalhes sobre o asteróide B612 e lhes confio o seu número, é

por causa das pessoas grandes.

As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo

amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: "Qual é o som da sua

voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas? "Mas

perguntam:

"Qual é sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa?

Quanto ganha seu pai?" Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos

às pessoas grandes: "Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas

no telhado. . . " elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma idéia da casa. É preciso

dizer-lhes: "Vi uma casa de seiscentos contos". Então elas exclamam: "Que beleza!"

Assim, se a gente lhes disser: "A prova de que o principezinho existia é que ele era

encantador, que ele ria, e que ele queria um carneiro. Quando alguém quer um carneiro, é

porque existe" elas darão de ombros e nos chamarão de criança! Mas se dissermos: "O

planeta de onde ele vinha é o asteróide B 612" ficarão inteiramente convencidas, e não

amolarão com perguntas. Elas são assim mesmo.

É preciso não lhes querer mal por isso. As crianças devem ser muito indulgentes

com as pessoas grandes.

Mas nós, nós que compreendemos a vida, nós não ligamos aos números ! Gostaria

de ter começado esta história à moda dos contos de fada. Teria gostado de dizer:

"Era uma vez um pequeno príncipe que habitava um planeta pouco maior que ele,

e que tinha necessidade de um amigo..." Para aqueles que compreendem a vida, isto

pareceria sem dúvida muito mais verdadeiro.

Porque eu não gosto que leiam meu livro levianamente. Dá-me tanta tristeza narrar

essas lembranças ! Faz já seis anos que meu amigo se foi com seu carneiro. Se tento

descrevê-lo aqui, é justamente porque não o quero esquecer. É triste esquecer um amigo.

Nem todo o mundo tem amigo. E eu corro o risco de ficar como as pessoas grandes, que

só se interessam por números. Foi por causa disso que comprei uma caixa de tintas e

alguns lápis também. É duro pôr-se a desenhar na minha idade, quando nunca se fez outra

tentativa além das jibóias fechadas e abertas dos longínquos seis anos ! Experimentarei,

claro, fazer os retratos mais parecidos que puder. Mas não tenho muita esperança de

conseguir. Um desenho parece passável; outro, já é inteiramente diverso. Engano-me

também no tamanho. Ora o principezinho está muito grande, ora pequeno demais. Hesito

também quanto a cor do seu traje.

Vou arriscando então, aqui e ali. Enganar-me-ei provavelmente em detalhes dos

mais importantes. Mas é preciso desculpar. Meu amigo nunca dava explicações.

Julgava-me talvez semelhante a ele. Mas, infelizmente, não sei ver carneiro através

de caixa. Sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que envelheci.


V


Dia a dia eu ficava sabendo mais alguma coisa do Planeta, da partida, da viagem.

Mas isso devagarinho, ao acaso das reflexões. Foi assim que vim a conhecer, no terceiro

dia, o drama dos baobás.

Dessa vez ainda, foi graças ao carneiro. Pois bruscamente o principezinho me

interrogou, tomado de grave dúvida:

É verdade que os carneiros comem arbustos?

Sim. É verdade.

Ah! Que bom!

Não compreendi logo porque era tão importante que os carneiros comessem

arbustos. Mas o principezinho acrescentou:

- Por conseguinte eles comem também os baobás?

Fiz notar ao principezinho que os baobás não são arbustos, mas árvores grandes

como igrejas. E que mesmo que ele levasse consigo todo um rebanho de elefantes, eles

não chegariam a dar cabo de um único baobá.

A idéia de um rebanho de elefantes fez rir ao principezinho:

- Seria preciso votar um por cima do outro ...

Mas notou, em seguida, sabiamente:

- Os baobás, antes de crescer, são pequenos.

- É fato ! Mas por que desejas tu que os carneiros comam os baobás pequenos?

- Por que haveria de ser? respondeu-me, como se se tratasse de uma evidência. E

foi-me preciso um grande esforço de inteligência para compreender sozinho esse

problema.

Com efeito, no planeta do principezinho havia, como em todos os outros planetas,

ervas boas e más. Por conseguinte, sementes boas, de ervas boas; sementes más, de ervas

más. Mas as sementes são invisíveis. Elas dormem no segredo da terra até que uma cisme

de despertar. Então ela espreguiça, e lança timidamente para o sol um inofensivo galinho.

Se é de roseira ou rabanete, podemos deixar que cresça à vontade. Mas quando se trata de

uma planta ruim, é preciso arrancar logo, mal a tenhamos conhecido.

Ora, havia sementes terríveis no planeta do principezinho: as sementes de baobá ...

O solo do planeta estava infestado. E um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca

mais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raízes.

E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando.

"É uma questão de disciplina, me disse mais tarde o principezinho. Quando a gente

acaba a toalete da manhã, começa a fazer com cuidado a toalete do planeta. É preciso que

a gente se conforme em arrancar regularmente os baobás logo que se distinguam das

roseiras, com as quais muito se parecem quando pequenos. É um trabalho sem graça, mas

de fácil execução."

E um dia aconselhou-me a tentar um belo desenho que fizesse essas coisas

entrarem de uma vez na cabeça das crianças. "Se algum dia tiverem de viajar, explicoume,

poderá ser útil para elas. às vezes não há inconveniente em deixar um trabalho para

mais tarde. Mas, quando se trata de baobá, é sempre uma catástrofe. Conheci um planeta

habitado por um preguiçoso. Havia deixado três arbustos. . .

E, de acordo com as indicações do principezinho, desenhei o tal planeta. Não gosto

de tomar o tom de moralista.

Mas o perigo dos baobás é tão pouco conhecido, e tão grandes os riscos daquele

que se perdesse num asteróide, que, ao menos uma vez, faço exceção à minha reserva. E

digo portanto: "Meninos! Cuidado com os baobás!" Foi para advertir meus amigos de um

perigo que há tanto tempo os ameaçava, como a mim, sem que pudéssemos suspeitar, que

tanto caprichei naquele desenho. A lição que eu dava valia a pena. Perguntarão, talvez:

Por que não há nesse livro outros desenhos tão grandiosos como o desenho dos baobás? A

resposta é simples: Tentei, mas não consegui.

Quando desenhei os baobás, estava inteiramente possuído pelo sentimento de

urgência.


VI


Assim eu comecei a compreender, pouco a pouco, meu pequeno principezinho, a

tua vidinha melancólica. Muito tempo não tiveste outra distração que a doçura do pôr-dosol.

Aprendi esse novo detalhe quando me disseste, na manhã do quarto dia:

- Gosto muito de pôr-do-sol. Vamos ver um ...

- Mas é preciso esperar.

- Esperar o quê?

- Esperar que o sol se ponha.

Tu fizeste um ar de surpresa, e, logo depois, riste de ti mesmo. Disseste-me:

Eu imagino sempre estar em casa!

De fato. Quando é meio-dia nos Estados Unidos, o sol, todo mundo sabe, está se

deitando na França. Bastaria ir à França num minuto para assistir ao pôr-do-sol.

Infelizmente, a França é longe demais. Mas no teu pequeno planeta, bastava apenas

recuar um pouco a cadeira. E contemplavas o crepúsculo todas as vezes que desejavas. . .

Um dia eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes!

E um pouco mais tarde acrescentaste:

Quando a gente está triste demais, gosta do pôr-do-sol ...

- Estavas tão triste assim no dia dos quarenta e três?

Mas o principezinho não respondeu.


VII


No quinto dia, sempre graças ao carneiro, este segredo da vida do pequeno

príncipe foi de súbito revelado.

Perguntou-me, sem preâmbulo, como se fora o fruto de um problema muito tempo

meditado em silêncio:

- Um carneiro, se come arbusto, come também as flores?

Um carneiro come tudo que encontra.

Mesmo as flores que tenham espinho?

Sim. Mesmo as que têm.

Então. . . para que servem os espinhos?

Eu não sabia. Estava ocupadíssimo naquele instante, tentando desatarraxar do

motor um parafuso muito apertado. Minha pane começava a parecer demasiado grave, e

em breve já não teria água para beber. . .

- Para que servem os espinhos?

O principezinho jamais renunciava a uma pergunta, depois que a tivesse feito. Mas

eu estava irritado com o parafuso e respondi qualquer coisa:

- Espinho não serve para nada. São pura maldade das flores.

- Oh!

Mas após um silêncio, ele me disse com uma espécie de rancor:

- Não acredito! As flores são fracas. ingênuas. Defendem-se como podem. Elas se

julgam terríveis com os seus espinhos ...

Não respondi. Naquele instante eu pensava: "Se esse parafuso ainda resiste, vou

fazê-lo saltar a martelo". O principezinho perturbou-me de novo as reflexões:

- E tu pensas então que as flores ...

- Ora! Eu não penso nada. Eu respondi qualquer coisa. Eu só me ocupo com coisas

sérias

Ele olhou-me estupefato:

- Coisas sérias !

Via-me, martelo em punho, dedos sujos de graxa, curvado sobre um feio objeto.

- Tu falas como as pessoas grandes!

Senti um pouco de vergonha. Mas ele acrescentou, implacável:

- Tu confundes todas as coisas ...

Misturas tudo !

Estava realmente muito irritado. Sacudia ao vento cabelos de ouro:

- Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou

uma flor. Nunca olhou uma estrela.

Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete

como tu: "Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!" e isso o faz inchar-se de

orgulho. Mas ele não é um homem; é um cogumelo!

- Um o quê?

- Um cogumelo!

O principezinho estava agora pálido de cólera.

- Há milhões e milhões de anos que as flores fabricam espinhos. Há milhões e

milhões de anos que os carneiros as comem, apesar de tudo. E não será sério procurar

compreender por que perdem tanto tempo fabricando espinhos inúteis? Não terá

importância a guerra dos carneiros e das flores? Não será mais importante que as contas

do tal sujeito? E se eu, por minha vez, conheço uma flor única no mundo, que só existe no

meu planeta, e que um belo dia um carneirinho pode liquidar num só golpe, sem avaliar o

que faz, - isto não tem importância?!

Corou um pouco, e continuou em seguida:

- Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de

estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: "Minha flor está lá,

nalgum lugar. . . " Mas se o carneiro come a flor, é para ele, bruscamente, como se todas

as estrelas se apagassem! E isto não tem importância!

Não pôde dizer mais nada. Pôs-se bruscamente a soluçar. A noite caíra. Larguei as

ferramentas. Ria-me do martelo, do parafuso, da sede e da morte. Havia numa estrela,

num planeta, o meu, a Terra, um principezinho a consolar! Tomei-o nos braços. Embaleio.

E lhe dizia: "A flor que tu amas não está em perigo... Vou desenhar uma pequena

mordaça para o carneiro... Uma armadura para a flor... Eu..." Eu não sabia o que dizer.

Sentia-me desajeitado. Não sabia como atingi-lo, onde encontrá-lo...

É tão misterioso, o país das lágrimas !


VIII


Pude bem cedo conhecer melhor aquela flor, Sempre houvera, no planeta do

pequeno príncipe, flores muito simples, ornadas de uma só fileira de pétalas, e que não

ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Apareciam certa manhã na relva, e já à

tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido não se sabe de onde, e

o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros. Podia ser uma

nova espécie de baobá. Mas o arbusto logo parou de crescer, e começou então a preparar

uma flor. O principezinho, que assistia à instalação de um enorme botão, bem sentiu que

sairia dali uma aparição miraculosa; mas a flor não acabava mais de preparar-se, de

preparar sua beleza, no seu verde quarto.

Escolhia as cores com cuidado. Vestia-se lentamente, ajustava uma a uma suas

pétalas. Não queria sair, como os cravos, amarrotada. No radioso esplendor da sua beleza

é que ela queria aparecer. Ah ! sim. Era vaidosa. Sua misteriosa toalete, portanto, durara

dias e dias. E eis que uma bela manhã, justamente à hora do sol nascer, havia-se, afinal,

mostrado.

E ela, que se preparara com tanto esmero, disse, bocejando:

- Ah ! eu acabo de despertar. . . Desculpa... Estou ainda toda despenteada...

O principezinho, então, não pôde conter o seu espanto:

- Como és bonita!

- Não é? respondeu a flor docemente. Nasci ao mesmo tempo que o sol...

O principezinho percebeu logo que a flor não era modesta. Mas era tão comovente!

- Creio que é hora do almoço, acrescentou ela. Tu poderias cuidar de mim ...

E o principezinho, embaraçado, fora buscar um regador com água fresca, e servira

à flor.

Assim, ela o afligira logo com sua mórbida vaidade. Um dia por exemplo, falando

dos seus quatro espinhos, dissera ao pequeno príncipe:

- É que eles podem vir, os tigres, com suas garras!

- Não há tigres no meu planeta, objetara o principezinho. E depois, os tigres não

comem erva.

Não sou uma erva, respondera a flor suavemente.

Perdoa-me ...

Não tenho receio dos tigres, mas tenho horror das correntes de ar. Não terias acaso

um pára-vento?

"Horror das correntes de ar... Não é muito bom para uma planta, notara o

principezinho. é bem complicada essa flor. . . "

À noite me colocarás sob a redoma. Faz muito frio no teu planeta. Está mal

instalado.

De onde eu venho ...

Mas interrompeu-se de súbito.

Viera em forma de semente. Não pudera conhecer nada dos outros mundos.

Humilhada por se ter deixado apanhar numa mentira tão tola, tossiu duas ou três vezes,

para pôr a culpa no príncipe:

- E o pára vento?

- Ia buscá-lo. Mas tu me falavas ...

Então ela redobrara a tosse para infligir-lhe remorso.

Assim o principezinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela.

Tomara a sério palavras sem importância, e se tornara infeliz.

"Não a devia ter escutado - confessou-me um dia - não se deve nunca escutar as

flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me

contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter

enternecido.

Confessou-me ainda:

"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas

palavras. Ela me perfumava, me iluminava ... Não devia jamais ter fugido. Deveria ter-lhe

adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores ! Mas eu

era jovem demais para saber amar."


IX


Creio que ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam. Na

manhã da partida, pôs o planeta em ordem. Revolveu cuidadosamente seus dois vulcões

em atividade. Pois possuía dois vulcões. E era muito cômodo para esquentar o almoço.

Possuía também um vulcão extinto. Mas, como ele dizia: "Quem é que pode garantir?"

revolveu também o extinto. Se eles são bem revolvidos, os vulcões queimam lentamente,

regularmente, sem erupções. As erupções vulcânicas são como fagulhas de lareira. Na

terra, nós somos muito pequenos para revolver os vulcões. Por isso é que nos causam

tanto dano.

O principezinho arrancou também, não sem um pouco de melancolia, os últimos

rebentos de baobá. Ele julgava nunca mais voltar. Mas todos esses trabalhos familiares

lhe pareceram, aquela manhã, extremamente doces.

E, quando regou pela última vez a flor, e se dispunha a colocá-la sob a redoma,

percebeu que estava com vontade de chorar.

- Adeus, disse ele à flor.

Mas a flor não respondeu.

- Adeus, repetiu ele.

Revolveu cuidadosamente seus dois vulcões

A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.

- Eu fui uma tola, disse por fim. Peço-te perdão.

Trata de ser feliz.

A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a

redoma no ar. Não podia compreender essa calma doçura.

- É claro que eu te amo, disse-lhe a flor. Foi por minha culpa que não soubeste de

nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz. . .

Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela.

- Mas o vento ...

Não estou assim tão resfriada... O ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor.

- Mas os bichos...

- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.

Dizem que são tão belas!

Do contrário, quem virá visitar-me? Tu estarás longe ...

Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras.

E ela mostrava ingenuamente seus quatro espinhos.

Em seguida acrescentou:

- Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!

Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa ...


X


Ele se achava na região dos asteróides 325, 326, 327, 328, 329, 330. Começou,

pois, a visitá-los,para procurar uma ocupação e se instruir.

O primeiro era habitado por um rei. O rei sentava-se, vestido de púrpura e

arminho, num trono muito simples, posto que majestoso.

Ah ! Eis um súdito, exclamou o rei ao dar com o principezinho.

E o principezinho perguntou a si mesmo:

Como pode ele reconhecer-me, se jamais me viu?

Ele não sabia que, para os reis, o mundo é muito simplificado. Todos os homens

são súditos.

- Aproxima-te, para que eu te veja melhor, disse o rei, todo orgulhoso de poder ser

rei para alguém.

O principezinho procurou com olhos onde sentar-se, mas o planeta estava todo

atravancado pelo magnífico manto de arminho. Ficou, então, de pé. Mas, como estava

cansado, bocejou.

É contra a etiqueta bocejar na frente do rei, disse o monarca. Eu o proíbo.

- Não posso evitá-lo, disse o principezinho confuso.

Fiz uma longa viagem e não dormi ainda...

Então, disse o rei, eu te ordeno que bocejes. Há anos que não vejo ninguém

bocejar! Os bocejos são uma raridade para mim. Vamos, boceja! É uma ordem!

- Isso me intimida... eu não posso mais... disse o principezinho todo vermelho.

- Hum ! Hum ! respondeu o rei. Então... então eu te ordeno ora bocejares e ora...

Ele gaguejava um pouco e parecia vexado.

Porque o rei fazia questão fechada que sua autoridade fosse respeitada. Não

tolerava desobediência. Era um monarca absoluto. Mas, como era muito bom, dava

ordens razoáveis.

"Se eu ordenasse, costumava dizer, que um general se transformasse em gaivota, e

o general não me obedecesse, a culpa não seria do general, seria minha."

- Posso sentar-me? interrogou timidamente o principezinho.

- Eu te ordeno que te sentes, respondeu-lhe o rei, que puxou majestosamente um

pedaço do manto de arminho.

Mas o principezinho se espantava. O planeta era minúsculo. Sobre quem reinaria o

rei?

- Majestade... eu vos peço perdão de ousar interrogar-vos...

- Eu-te ordeno que me interrogues, apressou-se o rei a declarar.

- Majestade... sobre quem é que reinais?

- Sobre tudo, respondeu o rei, com uma grande simplicidade.

- Sobre tudo?

O rei, com um gesto discreto, designou seu planeta, os outros, e também as

estrelas.

- Sobre tudo isso?

- Sobre tudo isso. respondeu o rei.

Pois ele não era apenas um monarca absoluto, era também um monarca universal.

- E as estrelas vos obedecem?

Sem dúvida, disse o rei. Obedecem prontamente.

Eu não tolero indisciplina.

Um tal poder maravilhou o principezinho. Se ele fosse detentor do mesmo, teria

podido assistir, não a quarenta e quatro, mas a setenta e dois, ou mesmo a cem, ou mesmo

a duzentos pores-do-sol no mesmo dia, sem precisar sequer afastar a cadeira ! E como se

sentisse um pouco triste à lembrança do seu pequeno planeta abandonado, ousou solicitar

do rei uma graça:

- Eu desejava ver um pôr-do- sol ... Fazei-me esse favor. Ordenai ao sol que se

ponha. . .

- Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou

escrever uma tragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem

recebida, quem - ele ou eu - estaria errado?

- Vós, respondeu com firmeza o principezinho.

- Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A

autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão

todos revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são

razoáveis.

- E meu pôr-do-sol? lembrou o principezinho, que nunca esquecia a pergunta que

houvesse formulado.

- Teu pôr-do-sol, tu o terás. Eu o exigirei. Mas eu esperarei, na minha ciência de

governo, que as condições sejam favoráveis.

- Quando serão? indagou o principezinho.

- Hein? respondeu o rei, que consultou inicialmente um grosso calendário. Será lá

por volta de ... por volta de sete horas e quarenta, esta noite. E tu verás como sou bem

obedecido.

O principezinho bocejou. Lamentava o pôr- do-sol que perdera. E depois, já estava

se aborrecendo um pouco!

- Não tenho mais nada que fazer aqui, disse ao rei.

Vou prosseguir minha viagem.

- Não partas, respondeu o rei, que estava orgulhoso de ter um súdito. Não partas:

eu te faço ministro

- Ministro de quê?

- Da ... da justiça

- Mas não há ninguém a julgar!

- Quem sabe? disse o rei. Ainda não dei a volta no meu reino. Estou muito velho,

não tenho lugar para carruagem, e andar cansa-me muito.

- Oh! Mas eu já vi, disse o príncipe que se inclinou para dar ainda uma olhadela do

outro lado do planeta. Não consigo ver ninguém ...

- Tu julgarás a ti mesmo, respondeu-lhe o rei. É o mais difícil. É bem mais difícil

julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, eis um verdadeiro

sábio.

- Mas eu posso julgar-me a mim próprio em qualquer lugar, replicou o

principezinho. Não preciso, para isso, ficar morando aqui.

- Ah ! disse o rei, eu tenho quase certeza de que há um velho rato no meu planeta.

Eu o escuto de noite. Tu poderás julgar esse rato. Tu o condenarás à morte de vez em

quando: assim a sua vida dependerá da tua justiça.

Mas tu o perdoarás cada vez, para economizá-lo. Pois só temos um.

- Eu, respondeu o principezinho, eu não gosto de condenar à morte, e acho que vou

mesmo embora.

- Não, disse o rei.

Mas o principezinho, tendo acabado os preparativos, não quis afligir o velho

monarca:

- Se Vossa Majestade deseja ser prontamente obedecido, poderá dar-me uma

ordem razoável. Poderia ordenar-me, por exemplo, que partisse em menos de um minuto.

Parece-me que as condições são favoráveis ...

Como o rei não dissesse nada, o principezinho hesitou um pouco; depois suspirou

e partiu.

- Eu te faço meu embaixador, apressou-se o rei em gritar.

Tinha um ar de grande autoridade.

As pessoas grandes são muito esquisitas, pensava, durante a viagem o

principezinho.


XI


O segundo planeta, um vaidoso o habitava.

- Ah! Ah! Um admirador vem visitar-me! exclamou de longe o vaidoso, mal vira o

príncipe.

Porque, para os vaidosos, os outros homens são sempre admiradores.

- Bom dia, disse o principezinho. Você tem um chapéu engraçado.

- É para agradecer, exclamou o vaidoso. Para agradecer quando me aclamam.

Infelizmente não passa ninguém por aqui.

- Sim? disse o principezinho sem compreender.

- Bate as mãos uma na outra, aconselhou o vaidoso.

O principezinho bateu as mãos uma na outra. O vaidoso agradeceu modestamente,

erguendo o chapéu.

- Ah, isso é mais divertido que a visita ao rei, disse consigo mesmo o

principezinho. E recomeçou a bater as mãos uma na outra.

O vaidoso recomeçou a agradecer, tirando o chapéu.

Após cinco minutos de exercício, o principezinho cansou-se com a monotonia do

brinquedo:

- E para o chapéu cair, perguntou ele, que é preciso fazer?

Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem os elogios.

- Não é verdade que tu me admiras muito? perguntou ele ao principezinho.

- Que quer dizer admirar?

- Admirar significa reconhecer que eu sou o homem mais belo, mais rico, mais

inteligente e mais bem vestido de todo o planeta.

- Mas só há você no seu planeta!

- Da-me esse gosto. Admira-me mesmo assim!

- Eu te admiro, disse o principezinho, dando de ombros. Mas como pode isso

interessar-te?

E o principezinho foi-se embora.

As pessoas grandes são decididamente muito bizarras, ia pensando ele pela viagem

afora.


XII


O planeta seguinte era habitado por um bêbado. Esta visita foi muito curta, mas

mergulhou o principezinho numa profunda melancolia.

- Que fazes ai? perguntou ao bêbado, silenciosamente instalado diante de uma

coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias.

- Eu bebo, respondeu o bêbado, com ar lúgubre.

- Por que é que bebes? perguntou-lhe o principezinho.

- Para esquecer, respondeu o beberrão.

- Esquecer o quê? indagou o principezinho, que já começava a sentir pena.

- Esquecer que eu tenho vergonha, confessou o bêbado, baixando a cabeça.

- Vergonha de quê? investigou o principezinho, que desejava socorrê-lo.

Vergonha de beber! concluiu o beberrão, encerrando-se definitivamente no seu

silêncio.

E o principezinho foi-se embora, perplexo.

As pessoas grandes são decididamente muito bizarras, dizia de si para si, durante a

viagem.


XIII


O quarto planeta era o do homem de negócios. Estava tão ocupado que não

levantou sequer a cabeça à chegada do príncipe.

- Bom dia, disse-lhe este. O seu cigarro está apagado.

- Três e dois são cinco. Cinco e sete, doze. Doze e três, quinze. Bom dia. Quinze e

sete, vinte e dois. Vinte e dois e seis, vinte e oito. Não há tempo para acender de novo.

Vinte e seis e cinco, trinta e um. Uf ! São pois quinhentos e um milhões, seiscentos e

vinte e dois mil, setecentos e trinta e um.

- Quinhentos milhões de quê?

- Hem? Ainda estás aqui? Quinhentos e um milhões de... eu não sei mais ... Tenho

tanto trabalho. Sou um sujeito sério, não me preocupo com ninharias! Dois e cinco, sete...

- Quinhentos milhões de quê? repetiu o principezinho, que nunca na sua vida

renunciara a uma pergunta, uma vez que a tivesse feito.

O homem de negócios levantou a cabeça:

Há cinqüenta e quatro anos que habito este planeta e só fui incomodado três vezes.

A primeira vez foi há vinte e dois anos, por um besouro caído não sei de onde. Fazia um

barulho terrível, e cometi quatro erros na soma. A segunda foi há onze anos, por uma

crise de reumatismo. Falta de exercício. Não tenho tempo para passeio. Sou um sujeito

sério. A terceira... é esta! Eu dizia, portanto, quinhentos e um milhões...

- Milhões de quê?

O homem de negócios compreendeu que não havia esperança de paz:

- Milhões dessas coisinhas que se vêem às vezes no céu.

- Moscas?

- Não, não. Essas coisinhas que brilham.

- Abelhas?

- Também não. Essas coisinhas douradas que fazem sonhar os ociosos. Eu cá sou

um sujeito sério. Não tenho tempo para divagações.

Ah estrelas?

- Isso mesmo. Estrelas.

- E que fazes tu de quinhentos milhões de estrelas

- Quinhentos e um milhões, seiscentos e vinte e duas mil, setecentos e trinta e uma.

Eu sou um sujeito sério. Gosto de exatidão.

- E que fazes tu dessas estrelas?

- Que faço delas?

- Sim.

- Nada. Eu as possuo.

- Tu possuis as estrelas?

- Sim.

- Mas eu já vi um rei que ...

- Os reis não possuem. Eles "reinam" sobre. É muito diferente

- E de que te serve possuir as estrelas?

- Serve-me para ser rico

- E para que te serve ser rico?

- Para comprar outras estrelas, se alguém achar.

Esse aí, disse o principezinho para si mesmo, raciocina um pouco como o bêbado -

No entanto, fez ainda algumas perguntas.

Como pode a gente possuir as estrelas?

De quem são elas? respondeu, ameaçador, o homem de negócios

- Eu não sei. De ninguém.

- Logo são minhas, porque pensei primeiro.

- Basta isso?

Sem dúvida. Quando achas um diamante que não é de ninguém, ele é teu. Quando

achas uma ilha que não é de ninguém, ela é tua. Quando tens uma idéia primeiro, tu a

fazes registrar: ela é tua. E quanto a mim, eu possuo as estrelas, pois ninguém antes de

mim teve a idéia de as possuir.

Isso é verdade, disse o principezinho. E que fazes tu com elas?

Eu as administro. Eu as conto e reconto, disse o homem de negócios. É difícil. Mas

eu sou um homem sério!

O principezinho ainda não estava satisfeito.

Eu, se possuo um lenço, posso colocá-lo em torno do pescoço e levá-lo comigo. Se

possuo uma flor, posso colher a flor e levá-la comigo. Mas tu não podes colher as

estrelas.

Não. Mas eu posso colocá-las no banco.

Que quer dizer isto?

Isso quer dizer que eu escrevo num papelzinho o numero das minhas estrelas.

Depois tranco o papel a chave numa gaveta.

- Só isto?

- E basta...

É divertido, pensou o principezinho. É bastante poético. Mas não é muito sério.

O principezinho tinha, sobre as coisas sérias, idéias muito diversas das idéias das

pessoas grandes.

- Eu, disse ele ainda, possuo uma flor que rego todos os dias. Possuo três vulcões

que revolvo toda semana. Porque revolvo também o que está extinto. A gente nunca sabe.

É útil para os meus vulcões, e útil para a minha flor que eu os possua. Mas tu não

és útil às estrelas ...

O homem de negócios abriu a boca, mas não achou nada a responder, e o

principezinho se foi ...

As pessoas grandes são mesmo extraordinárias, repetia simplesmente no percurso

da viagem.


XIV


O quinto planeta era muito curioso. Era o menor de todos. Mal dava para um

lampião e o acendedor de lampiões ...

O principezinho não podia atinar para que pudessem servir, no céu, num planeta

sem casa e sem gente, um lampião e o acendedor de lampiões. No entanto, disse consigo

mesmo:

- Talvez esse homem seja mesmo absurdo. No entanto, é menos absurdo que o rei,

que o vaidoso, que o homem de negócios, que o beberrão. Seu trabalho ao menos tem um

sentido. Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais uma estrela, mais uma

flor. Quando o apaga, porém, é estrela ou flor que adormecem. É uma ocupação bonita.

E é útil, porque é bonita.

Quando abordou o planeta, saudou respeitosamente o acendedor:

- Bom dia. Por que acabas de apagar teu lampião?

Eu executo uma tarefa terrível.

É o regulamento - respondeu o acendedor-. Bom dia.

Que é o regulamento?

É apagar meu lampião. Boa noite.

E tornou a acender.

- Mas por que acabas de o acender de novo?

- É o regulamento, respondeu o acendedor.

- Eu não compreendo, disse o principezinho.

- Não é para compreender, disse o acendedor. Regulamento é regulamento. Bom

dia.

E apagou o lampião -

Em seguida enxugou a fronte num lenço de quadrinhos vermelhos

- Eu executo uma tarefa terrível. Antigamente era razoável. Apagava de manhã e

acendia à noite. Tinha o resto do dia para descansar e o resto da noite para dormir...

- E depois disso, mudou o regulamento?

- O regulamento não mudou, disse o acendedor. Aí é que está o drama ! O planeta

de ano em ano gira mais depressa, e o regulamento não muda!

- E então? disse o principezinho

- Agora, que ele dá uma volta por minuto, não tenho mais um segundo de repouso.

Acendo e apago uma vez por minuto !

- Ah! que engraçado! Os dias aqui duram um minuto!

Não é nada engraçado, disse o acendedor. Já faz um mês que estamos

conversando.

Um mês?

Sim. Trinta minutos. Trinta dias. Boa noite.

E acendeu o lampião.

O principezinho considerou-o, e amou aquele acendedor tão fiel ao regulamento.

Lembrou-se dos pores-do-sol que ele mesmo produzia, recuando um pouco a cadeira.

Quis ajudar o amigo.

- Sabes .? Eu sei de um modo de descansar quando quiseres ...

- Eu sempre quero, disse o acendedor.

Pois a gente pode ser, ao mesmo tempo, fiel e preguiçoso.

E o principezinho prosseguiu:

- Teu planeta é tão pequeno, que podes, com três passos, dar-lhe a volta. Basta

andares lentamente, bem lentamente, de modo a ficares sempre ao sol. Quando quiseres

descansar, caminharás ... e o dia durará quanto queiras.

- Isso não adianta muito, disse o acendedor. O que eu gosto mais na vida é de

dormir.

- Então não há remédio, disse o principezinho.

- Não há remédio, disse o acendedor. Bom dia.

E apagou seu lampião.

Esse aí, disse para si o principezinho, ao prosseguir a viagem para mais longe, esse

aí seria desprezado por todos

Os Outros, o rei, o vaidoso, o beberrão, o homem de negócios. No entanto, é o

único que não me parece ridículo.

Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio.

Suspirou de pesar e disse ainda:

Era o único que eu podia ter feito meu amigo.

Mas seu planeta é mesmo pequeno demais. Não há lugar para dois ...

O que o principezinho não ousava confessar é que os mil quatrocentos e quarenta

pores-do-sol em vinte e quatro horas davam-lhe certa saudade do abençoado planeta!


XV


O sexto planeta era dez vezes maior - Era habitado por um velho que escrevia

livros enormes.

- Bravo! eis um explorador! exclamou ele, logo que viu o principezinho.

O principezinho assentou-se na mesa, ofegante. já viajara tanto!

- De onde vens? perguntou-lhe o velho.

- Que livro é esse? perguntou-lhe o principezinho.

Que faz o senhor aqui?

- Sou geógrafo, respondeu o velho.

- Que é um geógrafo? perguntou o principezinho.

- É um sábio que sabe onde se encontram os mares, os rios, as cidades, as

montanhas, os desertos.

É bem interessante, disse o principezinho. Eis, afinal, uma verdadeira profissão! E

lançou um olhar, em torno de si, no planeta do geógrafo. Nunca havia visto planeta tão

majestoso.

- O seu planeta é muito bonito. Haverá oceanos nele?

- Como hei de saber? disse o geógrafo.

- Ah! (O principezinho estava decepcionado.) e montanhas?

- Como hei de saber? disse o geógrafo.

- E cidades, e rios, e desertos?

- Como hei de saber? disse o geógrafo pela terceira vez.

- Mas o senhor é geógrafo

- É claro, disse o geógrafo; mas não sou explorador.

Há uma falta absoluta de exploradores. Não é o geógrafo que vai contar as cidades,

os rios, as montanhas, os mares, os oceanos, os desertos. O geógrafo é muito importante

para estar passeando. Não deixa um instante a escrivaninha.

Mas recebe os exploradores, interroga-os, anota as suas lembranças. E se as

lembranças de alguns lhe parecem interessantes, o geógrafo estabelece um inquérito sobre

a moralidade do explorador

- Por quê?

- Porque um explorador que mentisse produziria catástrofes nos livros de

geografia. Como o explorador que bebesse demais.

- Por quê? perguntou o principezinho.

- Porque os bêbados vêem dobrado. Então o geógrafo anotaria duas montanhas

onde há uma só.

- Conheço alguém, disse o principezinho, que seria um mau explorador.

- É possível. Pois bem, quando a moralidade do explorador parece boa, faz-se uma

investigação sobre a sua descoberta.

- Vai-se ver?

- Não. Seria muito complicado. Mas exige-se do explorador que ele forneça

provas. Tratando-se, por exemplo, de uma grande montanha, ele trará grandes pedras.

O geógrafo, de súbito, se entusiasmou:

- Mas tu vens de longe. Tu és explorador ! Tu me vais descrever o teu planeta !

E o geógrafo, tendo aberto o seu caderno, apontou o seu lápis. Anotam-se primeiro

a lápis as narrações dos exploradores. Espera-se, para cobrir à tinta, que o explorador

tenha fornecido provas.

- Então? interrogou o geógrafo.

Oh ! onde eu moro, disse o principezinho, não é interessante: é muito pequeno. Eu

tenho três vulcões. Dois vulcões em atividade e um vulcão extinto. A gente nunca sabe ...

- A gente nunca sabe, repetiu o geógrafo.

- Tenho também uma flor.

- Mas nós não anotamos as flores, disse o geógrafo.

- Por que não? É o mais bonito!

- Porque as flores são efêmeras.

- Que quer dizer "efêmera"?

As geografias, disse o geógrafo, são os livros de mais valor. Nunca ficam fora de

moda. É muito raro que um monte troque de lugar. É muito raro um oceano esvaziar-se.

Nós escrevemos coisas eternas.

Mas os vulcões extintos podem se reanimar, interrompeu o principezinho. Que

quer dizer "efêmera"?

- Que os vulcões estejam extintos ou não, isso dá no mesmo para nós, disse o

geógrafo. O que nos interessa é a montanha. Ela não muda.

Mas que quer dizer "efêmera" repetiu o principezinho, que nunca, na sua vida,

renunciara a uma pergunta que tivesse feito.

- Quer dizer "ameaçada de próxima desaparição".

- Minha flor esta ameaçada de próxima desaparição?

- Sem dúvida.

Minha flor é efêmera, disse o principezinho, e não tem mais que quatro espinhos

para defender-se do mundo ! E eu a deixei sozinha !

Foi seu primeiro movimento de remorso. Mas retomou coragem:

- Que me aconselha a visitar? perguntou ele.

- O planeta Terra, respondeu-lhe o geógrafo. Goza de grande reputação ...

E o principezinho se foi, pensando na flor.


XVI


O sétimo planeta foi pois a Terra.

A Terra não é um planeta qualquer! Contam-se lá cento e onze reis (não

esquecendo, é claro, os reis negros), sete mil geógrafos, novecentos mil negociantes, sete

milhões e meio de beberrões, trezentos e onze milhões de vaidosos isto é, cerca de dois

bilhões de pessoas grandes.

Para dar-lhes uma idéia das dimensões da Terra, eu lhes direi que, antes da

invenção da eletricidade, era necessário manter, para o conjunto dos seis continentes, um

verdadeiro exército de quatrocentos e sessenta e dois mil quinhentos e onze acendedores

de lampiões.

Isto fazia, visto um pouco de longe, um magnífico efeito. Os movimentos desse

exército eram ritmados como os de um balé de ópera. Primeiro vinha a vez dos

acendedores de lampiões da Nova Zelândia e da Austrália. Esses, em seguida, acesos os

lampiões, iam dormir. Entrava por sua vez a dança dos acendedores de lampiões da China

e da Sibéria. E também desapareciam nos bastidores. Vinha a vez dos acendedores de

lampiões da Rússia e das índias.

Depois os da África e da Europa. Depois os da América do Sul. Os da América do

Norte. E jamais se enganavam na ordem de entrada, quando apareciam em cena. Era um

espetáculo grandioso.

Apenas dois, o acendedor do único lampião do Polo Norte e o seu colega do único

lampião do Polo Sul, levavam vida ociosa e descuidada: trabalhavam duas vezes por ano.


XVII


Quando a gente quer fazer graça, mente às vezes um pouco. Não fui lá muito

honesto ao lhes falar dos acendedores de lampiões. Corro o risco de dar, àqueles que não

conhecem o nosso planeta, uma falsa idéia dele. Os homens ocupam, na verdade, muito

pouco lugar na superfície da Terra. Se os dois bilhões de habitantes que povoam a Terra

se mantivessem de pé, colados um ao outro, como para um comício, acomodar-se-iam

facilmente numa praça pública de vinte milhas de comprimento por vinte de largura.

Poder-se-ia ajuntar a humanidade toda na menor das ilhas do Pacífico.

As pessoas grandes não acreditarão, é claro. Elas julgam ocupar muito espaço.

Imaginam-se tão importantes como os baobás. Digam-lhes pois que façam o cálculo. Elas

adoram os números; ficarão contentes com isso. Mas vocês não percam tempo com esse

problema de aritmética. inútil. Vocês acreditam em mim.

O principezinho, uma vez na Terra, ficou, pois, muito surpreso de não ver

ninguém. já receara ter se enganado de planeta, quando um anel cor de lua remexeu na

areia.

- Boa noite, disse o principezinho, inteiramente ao acaso.

- Boa noite, disse a serpente.

- Em que planeta me encontro? perguntou o principezinho.

- Na Terra, na África, respondeu a serpente.

- Ah! ... E não há ninguém na Terra?

Tu és um bichinho engraçado, disse ele, fino como um dedo., .

- Aqui é o deserto. Não há ninguém nos desertos. A Terra é grande, disse a

serpente.

O principezinho sentou-se numa pedra e ergueu os olhos para o céu:

- As estrelas são todas iluminadas ... Não será para que cada um possa um dia

encontrar a sua? Olha o meu planeta: está justamente em cima de nós ... Mas como está

longe !

- Teu planeta é belo, disse a serpente. Que vens fazer aqui?

- Tive dificuldades com uma flor, disse o príncipe

- Ah! exclamou a serpente.

E se calaram.

- Onde estão os homens? repetiu enfim o principezínho. A gente está um pouco só

no deserto.

- Entre os homens também, disse a serpente.

O principezinho olhou-a longamente.

- Tu és um bichinho engraçado, disse ele, fino como um dedo...

- Mas sou mais poderosa do que o dedo de um rei, disse a serpente.

O principezinho sorriu.

- Tu não és tão poderosa assim...não tens sequer umas patas ... não podes sequer

viajar...

- Eu posso levar-te mais longe que um navio, disse a serpente.

Ela enrolou-se na perninha do príncipe, como um bracelete de ouro:

Aquele que eu toco, eu o devolvo à terra de onde veio, continuou a serpente. Mas

tu és puro. Tu vens de uma estrela ...

O principezinho não respondeu.

Tenho pena de ti, tão fraco, nessa Terra de granito.

Posso ajudar-te um dia, se tiveres muita saudade do teu planeta. Posso ...

- Oh! Eu compreendi muito bem, disse o principezinho. Mas por que falas sempre

por enigmas?

Eu os resolvo todos, disse a serpente.

E calaram-se os dois.


XVIII


O principezinho atravessou o deserto e encontrou apenas uma flor. Uma flor de

três pétalas, uma florzinha a toa...

- Bom dia, disse o príncipe.

- Bom dia, disse a flor.

- Onde estão os homens? perguntou polidamente.

A flor, um dia, vira passar uma caravana:

- Os homens? Eu creio que existem seis ou sete.

Vi-os há muitos anos. Mas não se pode nunca saber onde se encontram.

O vento os leva. Eles não tem raízes. Eles não gostam das raízes.

- Adeus, disse o principezinho.

- Adeus, disse a flor.


XIX


O principezinho escalou uma grande montanha. As únicas montanhas que

conhecera eram os três vulcões que lhe davam pelo joelho. O vulcão extinto servia-lhe de

tamborete. "De montanha tão alta, pensava ele, verei todo o planeta e todos os homens.

Mas só viu agulhas de pedra, pontudas.

- Bom dia, disse ele inteiramente ao léu.

- Bom dia ... Bom dia ... Bom dia ... respondeu o eco.

- Quem és tu? perguntou o principezinho.

- Quem és tu ... quem és tu ... quem és tu... respondeu o eco.

- Sêde meus amigos, eu estou só, disse ele.

- Estou só ... estou só ... estou só, respondeu o eco.

Este planeta é todo seco, pontudo e salgado.

"Que planeta engraçado pensou então. É todo seco, pontudo e salgado. E os

homens não têm imaginação. Repetem o que a gente diz ... No meu planeta eu tinha uma

flor: -e era sempre ela que falava primeiro."


XX


Mas aconteceu que o principezinho, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas

rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas na direção dos

homens.

- Bom dia, disse ele

Era um jardim cheio de rosas.

- Bom dia, disseram as rosas.

O principezinho contemplou-as. Eram todas iguais a sua flor.

- Quem sois? perguntou ele estupefato.

- Somos rosas, disseram as rosas.

- Ah! exclamou o principezinho. .

E ele sentiu-se extremamente infeliz. Sua flor lhe havia contado que ela era a única

de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, igualzinhas, num só jardim !

"Ela haveria de ficar bem vermelha, pensou ele, se visse isto... Começaria a tossir,

fingiria morrer, para escapar ao ridículo. E eu então teria que fingir que cuidava dela;

porque se não, só para me humilhar, ela era bem capaz de morrer de verdade. . . "

Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e é apenas uma

rosa comum que eu possuo. Uma rosa e três vulcões que me dão pelo joelho, um dos

quais extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito grande. . ." E, deitado

na relva, ele chorou.


XXI


E foi então que apareceu a raposa:

- Bom dia, disse a raposa.

- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu

nada.

Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...

- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...

- Sou uma raposa, disse a raposa

- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste

- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.

- Ah! desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

- Que quer dizer "cativar"?

- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?

- Procuro os homens, disse o principezinho - Que quer dizer "cativar"?

- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas

também. É a única coisa interessante que eles fazem - Tu procuras galinhas?

- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?

- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços.

- Criar laços?

Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto

inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não

tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil

outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para

mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

Começo a compreender, disse o principezinho.

Existe uma flor. . . eu creio que ela me cativou ...

É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra ...

- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada:

- Num outro planeta?

- Sim.

- Há caçadores nesse planeta?

- Não.

- Que bom ! E galinhas?

- Também não.

- Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua idéia.

- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as

galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço

um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um

barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar

debaixo da terra.

O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá

longe, os campos de trigo?

Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram

coisa alguma. E isso é triste Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso

quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o

barulho do vento no trigo ...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

- Por favor... cativa-me disse ela.

- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho

amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não

têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como

não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos, Se tu queres um amigo,

cativa-me!

Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.

É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe

de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A

linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto ...

No dia seguinte o principezinho voltou.

- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo,

às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for

chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada:

descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a

hora de preparar o coração ... É preciso ritos.

- Que é um rito? perguntou o principezinho.

- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa, É o que faz com que um

dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por

exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quintafeira

então é o dia maravilhoso!

Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam

todos iguais, e eu não teria férias !

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a

raposa disse:

- Ah ! Eu vou chorar.

- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste

que eu te cativasse ...

- Quis, disse a raposa.

- Mas tu vais chorar ! disse o principezinho.

- Vou, disse a raposa.

- Então, não sais lucrando nada !

- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou:

- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás

para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o principezinho rever as rosas:

- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda.

Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era

uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo.

Ela é agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa,

sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é,

porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a

redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto

duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou

mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

- Adeus, disse ele...

- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o

coração. O essencial é invisível para os olhos.

- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.

- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se

lembrar.

- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves

esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável

pela rosa...

- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se

lembrar.


XXII


- Bom dia, disse o principezinho.

- Bom dia, respondeu o guarda-chaves.

- Que fazes aqui? perguntou-lhe o principezinho.

- Eu divido os passageiros em blocos de mil, disse o guarda-chaves. Despacho os

trens que os carregam, ora para a direita, ora para a esquerda.

E um rápido iluminado, roncando como um trovão, fez tremer a cabine do guardachaves.

Eles estão com muita pressa, disse o principezinho.

O que é que estão procurando?

- Nem o homem da locomotiva sabe, disse o guarda-chaves.

E trovejou, em sentido inverso, um outro rápido iluminado.

- Já estão de volta? perguntou o principezinho...

- Não são os mesmos, disse o guarda-chaves. É uma troca.

- Não estavam contentes onde estavam?

- Nunca estamos contentes onde estamos, disse o guarda-chaves.

E um terceiro rápido, iluminado, trovejou.

- Estão perseguindo os primeiros viajantes? perguntou o principezinho.

- Não perseguem nada, disse o guarda-chaves. Estão dormindo lá dentro, ou

bocejando - Só as crianças esmagam o nariz nas vidraças.

- Só as crianças sabem o que procuram, disse o principezinho. Perdem tempo com

uma boneca de pano, e a boneca se torna muito importante, e choram quando a gente a

toma ...

- Elas são felizes ... disse o guarda-chaves.


XXIII


- Bom dia, disse o principezinho.

- Bom dia, disse o vendedor.

Era um vendedor de pílulas aperfeiçoadas que aplacavam a sede. Toma-se uma por

semana e não é mais preciso beber.

- Por que vendes isso? perguntou o principezinho.

- É uma grande economia de tempo, disse o vendedor.

Os peritos calcularam - A gente ganha cinqüenta e três minutos por semana.

- E que se faz, então, com os cinqüenta e três minutos?

- O que a gente quiser...

“Eu, pensou o principezinho, se tivesse cinqüenta e três minutos para gastar, iria

caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte. . .”


XXIV


Estávamos no oitavo dia de minha pane. justamente quando bebia a última gota da

minha Provisão de água, foi que ouvi a história do vendedor.

- Ah! disse eu ao principezinho, são bem bonitas as tuas lembranças, mas eu não

consertei ainda meu avião, não tenho mais nada para beber, e eu seria feliz, eu também, se

pudesse ir caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte!

- Minha amiga raposa me disse ...

Meu caro, não se trata mais de raposa .

- Por quê?

- Porque vamos morrer de sede ...

Ele não compreendeu o meu raciocínio, e respondeu:

- É bom ter tido um amigo, mesmo se a gente vai morrer. Eu estou muito contente

de ter tido a raposa por amiga...

- Não avalia o perigo, disse eu. Não tem nunca fome ou sede. Um raio de sol lhe

basta.

Mas ele me olhou e respondeu ao que eu pensava:

- Tenho sede também ... procuremos um POÇO ...

- Eu fiz um gesto de desanimo: é absurdo procurar um poço ao acaso, na

imensidão do deserto. No entanto, pusemo-nos a caminho.

Já tínhamos andado horas em silêncio quando a noite caiu e as estrelas começaram

a brilhar. Eu as via como em sonho, porque tinha um pouco de febre, por causa da sede.

As palavras do principezinho dançavam-me na memória:

- Tu tens sede também? perguntei-lhe.

Mas não respondeu à minha pergunta. Disse apenas:

- A água pode ser boa para o coração ...

Não compreendi sua resposta e calei-me... Eu bem sabia que não adiantava

interrogá-lo.

Ele estava cansado - Sentou-se. Sentei-me junto dele.

E, após um silêncio, disse ainda:

- As estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê...

Eu respondi "mesmo" e fitei, sem falar, a ondulação

da areia enluarada..

- O deserto, belo, acrescentou ...

E era verdade. Eu sempre amei o deserto. A gente se senta numa duna de areia.

Não se vê nada. Não se escuta nada. E no entanto, no silêncio,alguma coisa irradia... e

.. O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço

nalgum lugar.

Fiquei surpreso por compreender de súbito essa misteriosa irradiação da areia.

Quando eu era pequeno, habitava uma casa antiga, e diziam as-lendas que ali fora

enterrado um tesouro. Ninguém, é claro, o conseguira descobrir, nem talvez mesmo o

procurou. Mas ele encantava a casa toda - Minha casa escondia um tesouro no fundo do

coração. . .

- Quer se trate da casa, das estrelas ou do deserto, disse eu ao principezinho, o que

faz a sua beleza é invisível !

- Estou contente, disse ele, que estejas de acordo com a raposa.

Como o principezinho adormecesse, tomei-o nos braços e prossegui a caminhada.

Eu estava comovido. Tinha a impressão de carregar um frágil tesouro. Parecia-me mesmo

não haver na Terra nada mais frágil. Considerava, à luz da lua, a fronte pálida, os olhos

fechados, as mechas de cabelo que tremiam ao vento. E eu pensava: o que eu vejo não é

mais que uma casca. O mais importante é invisível..,

Como seus lábios entreabertos esboçassem um sorriso, pensei ainda: "O que tanto

me comove nesse príncipe adormecido é sua fidelidade a uma flor; é a imagem de uma

rosa que brilha nele como a chama de uma lâmpada, mesmo quando dorme. . . " Eu o

pressentia então mais frágil ainda.

É preciso proteger as lâmpadas com cuidado: um sopro as pode apagar...

E, caminhando assim, eu descobri o poço. O dia estava raiando.


XXV


- Os homens, disse o principezinho, se enfurnam nos rápidos, mas não sabem o que

procuram. Então eles se agitam, ficam rodando à toa ...

E acrescentou:

- E isso não adianta ...

O poço a que tínhamos chegado não se parecia de forma alguma com os poços do

Saara. OS poços do Saara são simples buracos na areia. Aquele, parecia um poço de

aldeia - Mas não havia ali aldeia alguma, e eu julgava sonhar.

- É estranho, disse eu ao principezinho, tudo está preparado: a roldana, o balde e a

corda.

Ele riu, pegou a corda, fez girar a roldana. E a roldana gemeu como gemem os

velhos cata-ventos quando o vento dormiu por muito tempo.

- Tu escutas? disse o príncipe. Estamos acordando o poço, ele canta ...

Eu não queria que ele fizesse esforço:

- Deixa que eu puxe, disse eu, é muito pesado para o teu tamanho.

Lentamente, icei o balde até em cima, e o instalei com cuidado na borda do poço.

Nos meus ouvidos permanecia ainda o canto da roldana, e na água, que ainda brilhava,via

tremer o sol.

- Tenho sede dessa água, disse o principezinho. Dá-me de beber ...

E eu compreendi o que ele havia buscado!

Levantei-lhe o balde até a boca. Ele bebeu, de olhos fechados. Era doce como uma

festa. Essa água era muito mais que um alimento. Nascera da caminhada sob as estrelas,

do canto da roldana, do esforço do meu braço. Era boa para o coração, como um presente.

Quando eu era pequeno, todo o esplendor do presente de Natal estava também na luz da

árvore, na música da missa de meia-noite, na doçura dos risos ...

- Os homens do teu planeta, disse o principezinho, cultivam cinco mil rosas num

mesmo jardim ... e não encontram o que procuram ...

- Não encontram, respondi...

E no entanto o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa, ou num

pouquinho d'água ...

- É verdade.

E o principezinho acrescentou:

- Mas os olhos são cegos. É preciso buscar com o coração ...

Eu havia bebido. Respirava facilmente. A areia é cor de mel quando amanhece. E a

cor de mel me fazia feliz.

Por que haveria eu de estar triste? ...

- É preciso, disse baixinho o príncipe, que cumpras a tua promessa. Ele estava, de

novo, sentado junto de mim.

- Que promessa?

- Tu sabes ... a mordaça do meu carneiro ... eu sou responsável pela flor!

Tirei do bolso as minhas tentativas de desenho. o principezinho os viu e disse

rindo:

- Teus baobás parecem um pouco repolhos...

- Oh!

Eu estava tão orgulhoso dos meus baobás!

- Tua raposa. . . as orelhas dela. . . parecem chifres. . . são compridas demais.

Ele riu outra vez.

- Tu és injusto, meu bem, eu só sabia desenhar jibóias abertas e fechadas ...

Não faz mal, disse ele, as crianças entendem.

Rabisquei, portanto, uma pequena mordaça. Mas sentia, ao entregá-la, um aperto

no coração:

Tu tens projetos que eu ignoro...

Ele não me respondeu. Mas disse:

- Lembras-te da minha queda na Terra? Amanhã será o aniversário...

Depois, após um silêncio, acrescentou:

- Caí pertinho daqui ...

E ficou vermelho ao dizê-lo.

E de novo, sem compreender porque, eu sentia um estranho pesar. No entanto,

ocorreu-me a pergunta:

- Então não foi por acaso que vagavas sozinho, quando te encontrei, há oito dias, a

milhas e milhas de qualquer região habitada! Não estarias voltando ao ponto da queda?

O principezinho ficou vermelho de novo.

E eu acrescentei, hesitando:

- Terá sido por causa do aniversário? ...

O principezinho ficou mais vermelho. Não respondia nunca às perguntas. Mas

quando a gente fica vermelho, não é o mesmo que dizer "sim"?

- Ah ! disse-lhe eu, eu tenho medo ...

Mas ele respondeu:

- Tu deves agora trabalhar. Ir em busca do teu aparelho. Espero-te aqui. Volta

amanhã de tarde. . .

Mas eu não estava tranqüilo. Lembrava-me da raposa.

A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar...


XXVI


Havia, ao lado do poço, a ruína de um velho muro de

pedra. Quando voltei do trabalho, no dia seguinte, vi, de longe, o principezinho

sentado no alto, com as pernas balançando. E eu o escutei dizer:

Tu não te lembras então? Não foi bem aqui o lugar

Uma outra voz devia responder-lhe, porque replicou em seguida:

- Não; não estou enganado. O dia é este, mas não o lugar...

Prossegui o caminho para o muro. Continuava a não ver ninguém. No entanto o

principezinho replicou novamente:

Está bem. Tu verás onde começa, na areia, o sinal dos meus passos. Basta esperarme.

Estarei ali esta noite.

Eu me achava a vinte metros do muro e continuava a não ver nada. O

principezinho disse ainda, após um silêncio:

- O teu veneno é do bom? Estás certa de que não vou sofrer muito tempo?

Parei, o coração apertado, sem compreender ainda.

- Agora, vai-te embora, disse ele ... eu quero descer!

Então baixei os olhos para o pé do muro, e dei um salto! Lá estava, erguida para o

principezinho, uma dessas serpentes amarelas que nos liquidam num minuto. Enquanto

procurava o revólver no bolso, dei uma rápida corrida.

Mas, percebendo o barulho, a serpente se foi encolhendo lentamente, como um

repuxo que morre. E, sem se apressar demais, enfiou-se entre as pedras, num leve tinir de

metal.

Cheguei ao muro a tempo de receber nos braços o meu caro principezinho, pálido

como a neve.

- Que história é essa? Tu conversas agora com as serpentes?

Desatei o nó do seu eterno lenço dourado. Umedeci- lhe as têmporas. Dei-lhe água.

E agora, não ousava perguntar-lhe coisa alguma. Olhou-me gravemente e passou-me os

bracinhos no pescoço. Sentia-lhe o coração bater de encontro ao meu, como o de um

pássaro que morre, atingido pela carabina. Ele me disse:

- Estou contente de teres descoberto o defeito do maquinismo. Vais poder voltar

para casa...

- Como soubeste disso?

Eu vinha justamente anunciar-lhe que, contra toda expectativa, havia realizado o

conserto !

Nada respondeu à minha pergunta, mas acrescentou:

- Eu também volto hoje para casa...

Depois, com melancolia, ele disse:

- É bem mais longe ... bem mais difícil...

Eu percebia claramente que algo de extraordinário se passava. Apertava-o nos

braços como se fosse uma criancinha; mas tinha a impressão de que ele ia deslizando

verticalmente no abismo, sem que eu nada pudesse fazer para detê-lo...

Seu olhar estava sério, perdido ao longe:

- Tenho o teu carneiro. E a caixa para o carneiro.

E a mordaça. . .

Agora, vai-te embora, disse ele ... eu quero descer!

Ele sorriu com tristeza.

Esperei muito tempo. Pareceu-me que ele ia se aquecendo de novo, pouco a pouco:

- Meu querido, tu tiveste medo...

É claro que tivera. Mas ele sorriu docemente.

- Terei mais medo ainda esta noite ...

O sentimento do irreparável gelou-me de novo. E eu compreendi que não podia

suportar a idéia de nunca mais escutar esse riso. Ele era para mim como uma fonte no

deserto.

- Meu bem, eu quero ainda escutar o teu riso ...

Mas ele me disse:

- Faz um ano esta noite. Minha estrela se achará justamente em cima do lugar onde

cai o ano passado ...

Meu bem, não será um sonho mau essa história de serpente, de encontro marcado,

de estrela?

Mas não respondeu à minha pergunta. E disse:

- O que é importante, a gente não vê ...

- A gente não vê ...

- Será como a flor. Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite,

olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas.

- Todas as estrelas estão floridas.

- Será como a água. Aquela que me deste parecia música, por causa da roldana e

da corda... Lembras-te como era boa?

- Lembro-me...

Tu olharás, de noite, as estrelas. Onde eu moro é muito pequeno, para que eu possa

te mostrar onde se encontra a minha. É melhor assim. Minha estrela será então qualquer

das estrelas. Gostarás de olhar todas elas ... Serão, todas tuas amigas. E depois, eu 'vou

fazer-te um presente ...

Ele riu outra vez.

- Ah! meu pedacinho de gente, meu amor,como eu gosto de ouvir esse riso!

- Pois é ele o meu presente ... será como a água...

- Que queres dizer?

- As pessoas têm estrelas que não são as mesmas.

Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de

pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro.

Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém...

- Que queres dizer?

- Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas

estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem ! E tu terás estrelas que sabem

rir!

E ele riu mais uma vez.

- E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás

contente por me teres conhecido.

Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo.

E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto ... E teus amigos ficarão espantados de

ouvir-te rir olhando o céu. Tu explicarás então: "Sim, as estrelas, elas sempre me fazem

rir!" E eles te julgarão maluco. Será uma peça que te prego ...

E riu de novo.

- Será como se eu te houvesse dado, em vez de estrelas, montões de guizos que

riem ...

E riu de novo, mais uma vez. Depois, ficou sério:

- Esta noite ... tu sabes ... não venhas.

- Eu não te deixarei.

- Eu parecerei sofrer ... eu parecerei morrer. É assim. Não venhas ver. Não vale a

pena...

- Eu não te deixarei.

Mas ele estava preocupado.

- Eu digo isto ... também por causa da serpente. É preciso que não te morda. As

serpentes são más. Podem morder por gosto ...

- Eu não te deixarei.

Mas uma coisa o tranqüilizou:

- Elas não tem veneno, é verdade, para uma segunda mordida...

Essa noite, não o vi pôr-se a caminho. Evadiu-se sem rumor. Quando consegui

apanhá-lo, caminhava decidido, a passo rápido. Disse-me apenas:

- Ah ! estás aqui ...

E,ele me tomou pela mão. Mas afligiu-se ainda:

- Fizeste mal. Tu sofrerás. Eu parecerei morto e não será verdade...

Eu me calava.

Tu compreendes. É longe demais. Eu não posso

carregar esse corpo. É muito pesado.

Eu me calava.

- Mas será como uma velha casca abandonada. Uma casca de árvore não é triste...

Eu me calava.

Perdeu um pouco da coragem, Mas fez ainda um esforço:

Será bonito, sabes? Eu também olharei as estrelas.

Todas as estrelas serão poços com uma roldana enferrujada.

Todas as estrelas me darão de beber...

Eu me calava.

- Será tão divertido ! Tu terás quinhentos milhões de guizos, eu terei quinhentos

milhões de fontes ...

E ele se calou também, porque estava chorando...

- É aqui. Deixa-me dar um passo sozinho.

E sentou-se, porque tinha medo.

Disse ainda:

- Tu sabes ... minha flor ... eu sou responsável por ela! Ela é tão frágil! Tão

ingênua! Tem quatro espinhos de nada para defende-la do mundo ...

Eu sentei-me também, pois não podia mais ficar de pé.

Ele disse:

- Pronto ... Acabou-se ...

Hesitou ainda um pouco, depois ergueu-se. Deu um passo. Eu ... eu não podia

mover-me.

Houve apenas um clarão amarelo perto da sua perna.

Permaneceu, por um instante, imóvel. Não gritou. Tombou devagarinho como uma

árvore tomba.

Nem fez sequer barulho, por causa da areia.


XXVII


E agora, certamente, já se vão seis anos ... jamais contara essa história. Os

camaradas ficaram contentes de ver-me são e salvo. Eu estava triste, mas dizia: É o

cansaço...

Agora já me consolei um pouco. Mas não de todo. Sei que ele voltou ao seu

planeta; pois, ao raiar do dia, não lhe encontrei o corpo. Não era um corpo tão pesado

assim ...

E gosto, à noite, de escutar as estrelas. Quinhentos milhões de guizos ...

Mas eis que sucede uma coisa extraordinária. Na mordaça que desenhei para o

principezinho, esqueci de juntar a correia! Não poderá jamais prendê-la no carneiro. E eu

pergunto então: "Que se terá passado no planeta? Pode bem ser que o carneiro tenha

comido a flor. . . "

Ora eu penso: "Certamente que não! O principezinho encerra a flor todas as noites

na redoma de vidro e vigia bem o carneiro. . . " Então, eu me sinto feliz. E todas as

estrelas riem docemente.

Ora eu digo: "Uma vez ou outra a gente se distrai e basta isto ! Esqueceu uma noite

a redoma de vidro ou o carneiro saiu de mansinho, sem que fosse notado. Então os guizos

se transformam todos em lágrimas.

Eis aí um mistério bem grande. Para vocês, que amam também o principezinho,

como para mim, todo o universo muda de sentido, se num lugar, que não sabemos onde,

um carneiro, que não conhecemos, comeu ou não uma rosa ...

Olhem o céu. Perguntem: Terá ou não terá o carneiro comido a flor? E verão como

tudo fica diferente ...

E nenhuma pessoa grande jamais compreenderá que isso tenha tanta importância!

Esta é, para mim, a mais bela paisagem do mundo, e também a mais triste. É a

mesma da página precedente. Mas desenhei-a de novo para mostrá-la bem. Foi aqui que o

principezinho apareceu na terra, e desapareceu depois.

Olhem atentamente esta paisagem para que estejam certos de reconhecê-la, se

viajarem um dia na África, através do deserto.

E se acontecer passarem por ali, eu lhes suplico que não tenham pressa e que

esperem um pouco bem debaixo da estrela ! Se então um menino vem ao encontro de

vocês, se ele ri, se tem cabelos de ouro, se não responde quando interrogam, adivinharão

quem é. Então, por favor, não me deixem tão triste; escrevam-me depressa que ele

voltou...http://www.4shared.com/file/12941932/aa0e0acf/O_Pequeno_Principe-_Antoine_De_Saint-Exupry.html